"you just keep me hanging on"
Lou Reed
Era uma vez uma linda moça que perguntou para um lindo rapaz:
-Você quer casar comigo?
Ele disse:
_Não.
E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, vivia fazendo compras, conheceu muuuitos outros rapazes, vistou muitos lugares, foi morar na praia, redecorou a casa. Estava sempre sorrindo e de bom humor, pois não tinha sogra, não tinha que lavar, nem passar. Nada lhe faltava. Bebia champagne com as amigas sempre que tinha vontade e ninguém mandava nela.
O rapaz ficou barrigudo, careca, o pinto caiu, a bunda murchou e ficou sozinho e pobre, pois nenhum homem constrói nada sem uma mulher!
FIM.
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O texto reproduzido acima tem circulado bastante pela internet. Da última vez que o recebi, tinha como remetente uma senhora, mãe de um velho amigo, ambos pelos quais tenho muito respeito.
Não a vejo há uns bons dez anos. Mas segundo me disseram, nada em sua vida mudou o suficiente para justificar semelhante atitude. Principalmente nada com relação a "seus homens" - nenhuma separação, crise matrimonial ou problema com os filhos, que seguem vivendo como quando éramos assíduos. Fiquei assustado.
Assustado, embora não surpreso. Não era a primeira vez. Há algumas semanas, lá estava eu entrando no orkut de uma amiga para deixar uma mensagem quando, de repente, não mais que de repente, bumba!, aparece ele, o hostil e debochado rompante esfola-homem, pronto para entristecer o rapaz desavisado. Juro que pensei em esquecer do bom propósito e, por um tempo, da amiga, também. Se não por me sentir ofendido, pelo menos por querer me furtar a pequenos amargores.
Não, não temos nada de mais. Nenhuma história picante para que o(a) leitor(a) suspeite das razões de minha insatifção. Somos amigos, só. Por isso, inclusive, conheço um pouco de sua vida amorosa. Não chega a pedir esse tipo de reação. E, além do mais, ela está solteira; razão pela qual, ao que parece, tem aproveitado tanto quanto qualquer mortal da tal liberdade...
Sei que o que está em jogo aí são caricaturas dos gêneros, imagens distorcidas das verdadeiras constantes sociais de que se compõem identidades, tralalá. Mas às vezes é nas brincadeiras eletrônicas que aparece o que não é elegante dizer claramente na vida ao vivo.
De certa forma já vi ouvi variantes desse e-mail em piadas sexistas um tantinho fortes demais. E também (se não contar aqui erto medo que tenho de ser rejeitado) em desculpas cuidadosas subsequentes a desilusões amorosas. E, se não for fazer muita confissão, à parte toda a civilidade, quando "tomo bota" (coisa que tem acontecido com irritante frequência), tenho sempre a sensação de que a coisa não diz respeito só a mim, mas também aos homens como um todo. Os mil jogos de sedução a que sou obrigado vêm de um receio confuso, mal declarado, a bem dizer de uma disponibilidade minada de recusa que, no final, toma a forma de desencontro casual, mal entendido.
Nessas ocasiões, checo o hálito e depois sempre penso: o medo devora a alma. Medo de, ao se implicar em uma relação, perder possibilidades de vida. Medo de não entrar em relação e ser descartado como coisa sem préstimo. Medo de se relacionar e dar de frente, dolorosamente, com os limites de si e do outro. O que infelizmente acaba valeu para mim também e não resolve nada...
Então, desiludido e sozinho, tenho ganas de teorizar. É o que faço. E você, leitor amigo, certamente não negará o ombro amigo a alguém que evidente está necessitado, certo? Vamos lá então...
O risco de sucesso, de fracasso ou de espoliação mina as relações antes mesmo que elas aconteçam. Quem quer que ainda se veja como um ser desejável e acaso tenha a intenção de amar frequenta lugares em que isso pode acontecer com um receio semelhante ao de quem se encolhe pelas ruas, com medo de ser roubado do que tem ou de lhe subtraírem possibilidades de vir a ter. Complementar a isso é a acomodação das relações, quando gente com afinidade finalmente decide que vale a pena manter o outro como objeto de amor. Surge daí uma forçação de barra, uma pressão impalpável de todo desejo rumo a um terreno pantanoso de amizade como prêmio de consolação, com escape rápido para a indiferença - que convém quando se espera que a vida se abra (ou quando ela de fato se abre) noutra direção mais preveitosa.
Pois é. Na vida em geral como no amor, todos vivem o risco de serem expoliados de suas condições de existência ou de afinal não conseguirem criar nenhuma. E em ambos os âmbitos o risco não vem só da rapacidade de um terceiro. Vem do medo de cada um e do próprio objeto de amor, das demandas insuportáveis desse outro que, malgrado a convivência, não conhecemos, e que de repente some pelos vãos de nossos dedos, assim, "naturalmente". Lutamos e nos esfalfamos pela famosa "felicidade" e se ela, um dia, decide virar para o outro lado, não há ninguém a culpar por isso - esse é o bordão que recitamos. Na prática, no entanto, a resignação vem impregnada de intenção, de ressentimento pelo objeto amado que nos usou e depois nos jogou fora, etc. O chão que nos sustenta foge dos nossos pés e culpamos a vida e a amada ingrata por isso.
Estamos certos e errados. A vida poderia ser outra, se os homens se organizassem para mudá-la. O amor poderia ser outro se os homens se organizassem para mudar a vida. Uma questão é, literalmente, a outra. E se não o fazemos há razões muito claras para isso.
Razões, não perspectivas.
Sim, meu leitor, meu confidente. Eu também já fui liberalista em matéria de amor. Confiei na mão invisível do afeto, no poder de compreensão mútua dos seres humanos e na capacidade da humana criatura em lutar pela felicidade comum. Hoje penso diferente e sofro muito. Não acredito mais no grande amor, sem aceitar muito bem o cinismo bem comportado, a trepadinha emborrachada, o estúpido passeio no parque policiado à salvo de ladrões e mendigos "que se chama amor".
Ai de mim, ai de nós! O processo pelo qual as mulheres se libertariam do julgo patriarcal fez com que elas se tornassem tão vis quanto os homens são. O louro de sua luta milenar: a árvore da sapiência virada ao contrário, de onde brotou o tubérculo proibido! E desde então atributos de virilidade e de empatia são disputados a ferro e fogo entre dois amantes, doravante dois inimigos.
E eu que, na vida prática (expressão tão mentirosa!), sempre achei que as questões de gênero se resolvessem a dois. Ledo engano!
Vamos de mãos dadas, eu dizia, mesmo quando nos odiamos. Vamos lá! Sem café com leite, sem desvantagens de partida! O que te dói, te dói, eu percebo; o que me dói, me dói, perceba. E lidemos com isso, amiga, esposa, mãe, mulher. A cultura não vai fazer isso pela gente (faz o contrário, aliás). A disparidade de gêneros é uma ilusão, assim como são os nomes - mulher-viril, mulher-submissa; macho-alfa, macho(cado); amélia, maria, diana, danuza. Nomes e nomes. E mais as dores que levamos conosco e que os cartórios não discernem, tampouco os mais sábios dos livros...
Eu estava enganado. A irreconciliável disparidade existe. E assumi-la é condição sine qua non para uma mulher se apossar do seu destino, tornar-se bela, forte, racional e livre.
Livre? Racional? O quanto? Não sei. Quem sabe? Litros e litros de tinta são derramados a cada semana para melhor descrever a confusão que o e-mail acima reduz com prazer. Ou para agravá-la, como fazem as revistas semanais de gênero.
Nada feito. O melhor dos esforços é vão. Vencem as revistas, vence a humilhação e o amor pobre. E cada passo dado na direção de um par continua sendo um passo dado em direção a um abismo. Cada página virada dos livros que ninguém quis ler e ainda tratam disso só descreve o negror com tintas mais carregadas.
Está bem. Talvez você não acredite em mim, leitor. Deve pensar que tudo isso é baboseira, que nenhuma cabeça conseguiria reverter o que não se resolve na cama.
Concordo, mas acrescento que no meio campo entre a cama e os livros, nas infinitas dr's, lutamos contra verdadeiros fantasmas que, cedo ou tarde, voltam para nos assolar. E que nossa solução para tal é a mesma que adotamos na vida em geral (brasileiro nunca desiste, só o amor contrói), conduzindo sempre à resignação munida de autojustificativas mais ou menos eficientes.
Você se lembra de seus últimos bate-bocas e daquela questão que nunca vai se resolver, do mútuo acordo de "tolerá-la" (palavra tão comum hoje em dia!). Mas mesmo tocado pelo argumento que o implica, você pode não estar convencido.
Tudo bem. Eu admito isso. Quem sou eu pra falar da vida alheia? Ainda mais nessa zona de mistérios cuja delicada carnatura só muito raremente vê a luz do dia...
Pois bem. Talvez você acredite que viva na terra onde o afeto reina livre, leve e solto. De fato, a admissão de que o amor não resolve nada sempre será um duro golpe para um brasileiro, criatura vaidosa da sociabilidade aberta e permissiva que tanto invejam os estrangeiros.
Vamos entrar nessa, então. A gente poderia, por exemplo, tentar tratar as questões de gênero como às de futebol, não é mesmo? Há decerto um pouco de guerra dos sexos no amor, mas isso é compensado pelo bom tempo. Quem pode ficar em casa quando o sol raia alto a 32 graus durante um quarto do ano? Sempre há ocasião para uma peladinha. E todo mundo sabe: na mesa de bar, corintianos e são-paulinos, mesmo que não se conheçam, deixam de lado suas diferenças para curtir a cerveja e o prazer de gostar de futebol. A própria animosidade, inclusive, vira fator de agregação entre rivais, piada que aproxima desafetos em potencial.
Por outro lado, no estádio, é bem verdade que cada qual vira a única e altissonante palavra de ordem admissível, o mesmo hino de afirmação, contraposto ao do inimigo, infinitmente vil e desprezivel. Uma faísca no lugar certo e digliam-se, matam-se. Depois vão para casa e chamam churrasco com os amigos para contar vantagens.
A política de verdade deverá responder à questão, então. Sim, a verdadeira, aquela que não demanda instrução, a da habilidade conquistada a duras penas no dia a dia, não a noticiada, a da praxis clandestina nas dobras do mundo e do corpo alheio.
Há o que dizer sobre política e sexo. Tanto no sentido das bandeiras públicas, quanto no da fé nos microacordos da vida privada.
Quanto à primeira, não sei, pode ser coincidência, mas me parece que a pessoa que levanta bandeira de politização dos gêneros, na maioria das vezes, tem dificuldades em se admitir como desejada e de desejar (veja bem, leitor(a) eu disse "pessoa", neste caso). Em termos mais singelos: onde quer que esteja, vocifera contra a milenar exploração das mulheres, contra o chauvinismo dos homens, contra a resignação das mulheres ao papel de objeto, contra a incapacidade dos homem em assumirem o papel passivo que se lhes vêm propondo. Questões que naturalmente podem se manifestar tanto em escravidão domiciliar quanto nas más intenções do amigo que propõe dividir meio a meio a coxinha no bar da esquina.
Enfim, confunde-se gentileza e paquera com manipulação e um belo dia a dita cuja pessoa politizada se pega tecendo loas aos animais, seres desprovidos de malícia (não raro feministas e homens sensíveis são também vegetarianos e defensores dos direitos dos animais).
Pior: às vezes, se a gente observar bem, por trás de toda a ilustração e a ira justa, até um pouquinho da boa e velha canalhice bem à brasileira aparece. Por exemplo, já ouvi uma conhecida dizer que cortou relações com um amigo de longa data porque ele teve um filho; ele, bem ele que, como ela, era "contra a procriação". A mesma conhecida, aliás, praticava sinceramente o "casamento aberto", à contragosto do marido. E, a seguir, não hesitou em largar sua agenda afetiva quando encontrou o "homem de sua vida". Enfim... ia sempre para onde o vento agitasse as palavras mais belas... e atropelava corações no meio do caminho... e sentia-se tão melhor quanto mais longe estivesse de si mesma e do outro (não do Outro, preocupação constante).
Pois é. As mais sublimes intenções de esclarecimento dessa zona de claro e escuro a que todos nós estamos condenados parecem fazer figura tão lamentável quanto a bandalheira da política institucional, que acompanhamos bufando de tédio (ou de ódio) no jornal das oito. As mesmas trapaças, as mesmas promessas em que ninguém mais acredita, a mesma disposição para o diálogo infértil, as mesmas atitudes regressivas assumidas com desfaçatez ou estertores de culpa.
Neste exato momento, meu confidente pode estar desconfiando de mim. Talvez me ache um pouco amargo demais, cutuque este acinzentado bloco de raciocínio e encontre razões escusas por detrás da pintura esmaecida.
Talvez chegue mesmo à conclusão de que, por detrás de um cara decepcionado com alguma ex-namorada, há um verdadeiro conservador em matéria de costumes. Alguém que secretamente tem saudade da era patriarcal típica, na qual a liberdade da mulher não era uma questão. Alguém que, bem pesados os fatores, prefere à liberdade das mulheres de ferir e serem reconhecidas por isso nenhuma liberdade (que elas sofram em silêncio uma situação de humilhação unilateral).
Nesse caso, acho que nos desentendemos, meu caro leitor. Tudo não é ironia contra as mulheres que se levantam contra a opressão. Achamos mesmo que a exploração feminina é um fato e quem o nega é cínico. Está presente em favorecimentos chauvinistas na vida profissional; reflete-se em situações domésticas humiliantes, quando não violentas, e está garantida por uma educação inibidora ou espúria. Sem contar as mil e uma imagens da mulher-objeto, as obrigações da beleza-sempre-em-dia, as elegantérrimas publicações masculinas... e também, como se não bastasse, a sempre atuante pressão familiar para fazer, à forceps, de cada mulher, uma mãe. Realmente, é muita coisa para qualquer um suportar.
Dito isso, vou dizer o que eu acho de verdade.
Acho que o que gera esse tipo de violência contra os homens (sim, o termo é esse) não tem nada a ver com o tipo de opressão que acabei de listar - a familiar, a dos maridos bêbados, a das sovas ocasionais, a do galanteio canalha, a da sala de jantar, a dos fogõezinhos de brinquedo, a dos olhares enviesados na empresa, a da dupla jornada de trabalho, a da coação para a maternidade.
Todas essas, mesmo que ainda muito praticadas, estão na pauta do dia. Neste momento, se a gente ligar o televisor, seja na TV senado, seja na Cultura, seja na novela das oito, vai ter alguém falando sobre isso. E se trocarmos o canal, assistiremos ao último pronunciamento da Dilma Houssef.
Não, leitor(a). O verrume que se sente nesse texto e em atitudes parecidas (este sim o mais recente dos tabus) não vem dos desfavorecimentos. Ao contrário. Vem dos "direitos" que, como todos os direitos são e não são reais, descrevem e não descrevem a realidade, apontam para onde a vida gostaria de ir, não para onde ela está.
Sim, a agressão que andam praticando contra os homens vem da posição ambivalente das mulheres - cada uma, como indivíduo - em relação à nova liberdade supostamente adquirida e a ela destinada.
Não tem ranço no que estou dizendo. Por mais desenvoltas que pareçam, por mais que alardeiem conquistas e vantagens e, literalmente, batam o falo na mesa (como uma outra amiga gostava de dizer), apossar-se do que se pode ser não se faz impunemente. É difícil, não está ao alcance de todas as mulheres por critérios de classe e, culturalmente, soa artificial no começo, precisa ser afirmado e reafirmado, não entra facilmente nos costumes, não aparece rapidinho na frente do espelho, não vira tesouro de linguagem de uma hora para outra.
E nos momentos de revolta, sempre haverá a sombra do homem qualquer bufando no cangote, sobre a qual se poderá descontar a raiva pelo futuro brilhante que "só para mim não sorriu" ou "que eu vou conquistar a unhas e dentes".
Que conste o fato de que todas as solicitações para que as pessoas se emancipem (sejam elas homens ou mulheres) têm como fundo, não uma vida alegre, livre de preconceitos e esclarecida, mas sim uma de compromisso ainda mais ferrenho para com as necessidades que já conhecemos: a de fazer-se empreendido, energético, falar bem, dormir pouco, refrear-se ao sexo, à comida e outras delícias excessivas (enfim, a de dominar-se). Adicione-se a isso o fator de haver ou não emprego coroando a empreitada - afinal, não é um sucesso histórico que garante a cada qual o de-comer e os prazeres e perspectivas que todos merecemos. Complemente-se isso com a publicidade investindo pesado no bordão "o mundo é seu, mulher" e a realidade correlata ser encontrável, apenas, na vida de 2% da população mundial. E aí, só aí, acho que dá pra começar a entender esse texto.
Em termos mais diretos, a aura do patriarcalismo permanece, invertida, quando a conquista universal dos direitos das mulheres se transforma em objeto de disputa mercadológica, em artigo de consumo como brincos e roupas elegantes. Ela permance pairando pelos ares, como subproduto fantasmático de um roubo histórico. Assim ela perverte em dominação a emancipação das vencedoras e corrompe o anseio de autoafirmação das mulheres perdedoras (o que todas são antes de "vencerem" na vida, ou se não "vencerem") ao ponto de transformá-lo em puro ressentimento contra "a natureza intrinsecamente predatória do macho".
Para concluir, este e-mail não é um conto de fadas, como faz pressupor a forma do relato da "narradora". É um pesadelo em que estão implicados ativamente todos os seres humanos que se acreditam capazes de gozar de verdade. É a queixa agressiva de homens e mulheres resignados ao amor pobre (ou à falta dele), incapazes para a reversão pública da dominação (que, literalmente é coextensiva à privada) e que, ainda por cima, acreditam compensar a derrota partilhada com o mínimo "exercício afetivo" que lhes coube: escrever e responder cartas à distância em que fica muito clara a opção pela violência em detrimento da reflexão sobre a solidão. Cuja justificativa e aceitação é, aliás, como todas as coisas, não algo a se subverter coletivamente e sim algo a ser disputado.