quarta-feira, 26 de maio de 2010

Chocolate Jesus

O rádio toca baixo. Mais para distrair a cabeça do que para ser ouvido. Cumpre sua função, espelhando daqui de dentro do apartamento os ruídos lá de fora; as notícias da tarde, os boletins de urgência substituindo o lento degradê da luz, que se advinharia nos azulejos se o sol batesse deste lado da avenida. Conheço esta canção que acabou de começar. A paisagem íntima já não caminha mais tão lenta. Sim, é Chocolate Jesus, do Tom Waits. Estou desperto, me deixo levar um instante pelo cantor bebão, divertido, mau humorado.


Well it's got to be a chocolate Jesus
Make me feel good inside
Got to be a chocolate Jesus
Keep me satisfied


Mas logo alguma outra coisa começa a acontecer. Tento me concentrar no prazer leve de segundos atrás e já não consigo. O sol de repente se apaga e todos os cômodos do apartamento são engolfados de súbito cinza. Os carros deixam de cruzar a esquina por um momento. Ouço um estrondo. No quarto?Oh, esta canção pobre, rombuda, tocada com raiva, martelada nos ouvidos, me lembra a batida das três portas antes da cena... o cabelo solto, o pijama de coraçãozinho, a mão apoiada na janela, os pés descalços no gelado parapeito. O rosto decomposto... Meu Deus! Meu Deus! Eu sei que as coisas não são assim. Mas às vezes não consigo me concentrar nessa sabedoria. Outro dia, andando na rua, eu estava prestes a me jogar debaixo de um caminhão. Só não fiz isso porque, de repente, uma florzinha amarela caiu de uma árvore, bem na minha cabeça. Ela era tão bonita que me distraiu e eu pude chegar em casa. Hoje, eu não aguentei. Mas o que pode uma florzinha, eu não pude! Nem todo chocolate do mundo poderia quando o tempo fechou de verdade!

Nem deveria ter podido! É loucura confiar tanto assim nos homens, no comercial da Lacta, no estômago, na serotonina, no acaso de uma folha que não aguenta mais a secura do outono e despenca! Se bem que essa não era sua loucura. Era sua paradoxal e repentina sanidade. Louca era sua crença de menina, de filha, de arrimo de si mesma, de esmerada professora de inglês. Louca! Louca para depositar esperanças num certo nobre cavaleiro gótico reanimado por novelas, habitando os olhos anuviados do rebotalho de namorado que, agora, está bem ali, ao pé da porta, desesperado!Não, meu amor!, ali não há cavaleiro algum. Não adianta atiçá-lo com brasa, fazer com que ele percorra distâncias fabulosas! É inútil arrancá-lo de uma só vez de sua aldeia, raspar de supetão o tacho de cobre em que fervem todas as suas bobeiras de adolescente. Achar que disso pode-se moldar um homem... É inútil! Tão inútil quanto ter quebrado metade do quarto em seguida! Não bastou, não foi o suficiente! Era a decisão errada. (Decisão... como decidir qualquer coisa? quando os caminhões não param de passar?!). Era melhor que a fuligem não tivesse nublado a sua vista, nem a minha. Era preciso que os dois se despissem das ilusões, com calma e carinho, juntos. Que as deitassem com mão leve, num baú de feltro verde, uma a uma.Ah, estupidez, miséria! Tornei-me tão porco que às vezes tenho vontade de voltar no tempo e poupar a dor de cabeça do caminhoneiro. Queria acabar com aquilo de uma vez; num sopro, num peteleco!

Mesmo sabendo que seria inútil. Mesmo sabendo que os carros continuariam passando e que as dívidas continuariam chegando pelo correio semanalmente! Mesmo sabendo que a Fisk continuaria pagando 12 a hora para seus escravos! Ciente de que a comida ainda iria parar no armário da amante do pai, tão afogado em dívidas quanto a filha! Careca de saber que a mãe ainda assim não moveria uma palha, vivendo à beira-mar em Fortaleza! Que a irmã não perderia um compromisso sequer na Bosch e treparia com mais força com o namorado venezuelano para chegar bem cansada em casa e não reparar em nada! Que as amigas virariam a situação contra mim, salvando-se na memória dos anos queridos da desgraçada e esquecendo de ligar no dia seguinte. Que o buquê de flores amarelas que comprei pra ela também no dia seguinte inevitavelmente murcharia...

Murcharia, não. Como a desgraçada, se esfacelaria e se integraria ao asfalto imperturbável. Assim como o pai que continuaria suando no forró a graxa da oficina hipotecada, chacoalhando a mulher sem emprego e com três filhos pra criar. Assim como a mãe, mais bronzeada do que nunca e beneficiária fantasma do INSS, fingindo que vive de quentinhas. Assim como a irmã promovida à gerência, com um apê aqui, outro em Caracas. Assim como as amigas gastas, gordas, pelancudas, histéricas, escória provinciana, vacas bêbadas babando Contini, esfregando-se nas paredes do Madame Satã, acalentando o tédio remelento no Dark Room, visitando uma vez por ano a desgraçada, já meio frias e preferencialmente no aniversário...


Sim, tudo mudou e segue inalterado ao mesmo tempo. Deu-se à vista, sem oferecer perspectivas. Sim, tenho essa história inteirinha na palma da minha mão. Conheço tudo o que ela foi e o que ela poderia ter sido. Conheço este passado. Com um esforço que nem consigo descrever, pus um ponto final nele, mudei-me, mergulhei de cabeça na selva da cidade, apanhei, sofri, continuo de pé. E, no entanto.... estou perdido! Tornei-me vil, porco, revoltado e niilista! Como a louca, fui presa das minhas ilusões. Assimilei-me ao herói impotente, ao perverso anacoreta, ao misantropo inimigo da vida que sempre esteve aqui e que desde estão, cada vez mais forte, não tem cessado de crescer dentro de mim. Tornei-me um estúpido rancoroso bem pensante que grita aos quatro ventos a corrupção do mundo e nas horas vagas remói seus tormentos, sozinho, procura-os nos livros, faz acrobacias com eles neste bloguezinho, cultivando-se para nada! Tarde demais. Tudo o que é dádiva e graça e leveza na vida não subsiste; estiola, apodrece, e da crosta do tecido humano calcinado, vive a mais eficiente mentira que já inventaram, em tudo banal, cotidiana, tão evidente que é como se sustentasse cada ser vivo como o ar imprestável desta cidade que os pulmões aspiram. Oh, miserável celofane em que os homens se embalaram para não perceber que a vida nada mais é do que decadência e sofrimento! Milhões de cabeças dedicadas a este nó cego, esta incrível confusão translúcida, evidente. Banal. Algo digno de ser despachado e sumir ao sabor da mais recente pesquisa de mercado, segundo o humor ocasional do cliente, em cada loja de conveniência...


Chega! Não aguento mais esse tom de autopiedade, esse grito martelado, a nota de arrogância que o acompanha (no fundo, a mesma que me fez ficar de pé diante da ira santa da cavalaria e ser esmagado pela mais manquitola de suas éguas). A memória da louca mexe comigo, me leva para um lugar em que eu não quero mais estar. Mesmo depois de a ter espantado como uma mosca varejeira. Mesmo depois de muita lama estagnada sob a ponte...


Chega. É tarde. A música já acabou... escorrem do rádio as notícias do dia, em retrospecto. Hora de consultar a agenda e ver o que me espera no dia seguinte...Não tenham dó de mim. Não sintam raiva de mim. Não me achem fraco. E sob hipótese alguma se compadeçam com esta confissão idiota feita pra não durar. Sobretudo não se deixem levar pela minha desgraça ou a dela: nenhuma piedade para a moça que tentou fazer com vertigem o que se deve fazer devagar, deixando brechas, para que a vida, com seus incansáveis ardis, combata a morte em cada canto do planeta, em cada cabeça, em cada coração. Comam chocolates... riam, chorem ou não deem a mínima... mas por outras coisas.


Na verdade, não. Num último momento de ousadia, eu só gostaria de pedir uma coisa, se não for abusar demais da boa vontade de vocês. Aliás, nem é bem pra vocês que peço, é mais pro acaso: queria que a inteligência sem alarde, a humanidade preservada a alto custo e a graça singela - embora cáustica - da canção do Tom Waits, vencesse o cansaço em cada um de nós. Ou melhor, algo mais simples: que um dia, antes de entrar no metrô ou no coletivo, de repente, um barulho de lata ou de violão desafinado atravessasse vossas equilibradas cabeças, entortasse por um momento vossos afinados ouvidos. E que vocês, angustiados pelo ônibus que não chega, pensassem por um segundo - impossível que seja -. que o vira-lata deitado debaixo do banco em que dorme o mendigo não está dormindo e sim, na verdade, uivando, sem lua:


when the weather is rough
and it’s whisky in the shade
it's best to wrap your savior
up in celophane

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Amor (ou diálogo que cresce de dentro pra fora e de baixo pra cima)


Ah, meu, não tenho muito o que falar disso. Eu tava esperando uma coisa, tava com a cabeça em um lugar, você em outro. Eu te disse. Eu tava apaixonada, você não [...] a gente escolheu ficar enquanto partia [...] você pra dentro desta cidade; eu, pra fora [...] Não sabia que ia viver um negócio assim, essa atenção[...]

Namorei com um cara, inclusive, diretor de teatro, uns 40 anos. Foi bacana, agora já acho que não sei. [...] Como por quê? O que um diretor faz? Ele manda. Autoritário, meio perigoso pra mim. Ficou sem resolver até o fim do ano. Tá tudo meio assim. [...]

É que, bom, é complicado. Eu saí de lá da minha tia, aconteceu tudo isso e, agora, tô ficando na casa de um amigo. [...]

Mas é outra a vida lá. É outra coisa. O tempo passa devagar, todo mundo sabe da vida de todo mundo. Bom pra ficar consigo, acompanhado, vários conhecidos, mas sozinho, pensando [...] E tem essa: muita fofoca. Juro. Eles vão perguntando as coisas de um jeito, na gentileza, e, quando você viu, já falou mais do que queria e eles sabem tudo de você e você nada deles [...]

É verdade isso. Não é brincadeira. [...] Vamos, o sol tá quente... ali por baixo da praça é melhor, só falar oi pros meus amigos ali do outro lado [...] Ele me perguntou se você era do DENARC, acredita?

Com a minha mãe. A gente deu uma volta aqui pelo bairro, na virada. Bastante gente na rua, foi legal. Fazia tempo que eu não passava aqui em São Paulo [...] Não, eu tentei ir com uns amigos e não consegui, eles atrasaram. Comprei o ingresso e tudo. Perdi [...] Este sábado à noite? [...]

Desculpa a demora, tava procurando o guarda-chuva e... eu sei que não dá nem um quarteirão [...]

Mas, sabe o que é? É que é meu último dia aqui, combinei de ver uns amigos. A gente vai ou não? Será que a gente chega? Até o Eldorado é quinze minutos de ônibus. Pode não dar [...]

Ver um filme aqui é legal também [...]

Não é verdade que da outra vez eu também tirei o sapato e abri sem pedir licença. É? [...]

Acho que a gente nunca vai ter que pedir licença um pro outro [...] Daquele seu blog, por exemplo, o segundo, eu tinha a impressão de que você estava muito triste [...]

Vou te falar como se diz "entrar sem pedir licença" em uma palavra azul-escura [...]

[...] você põe letra?