segunda-feira, 30 de maio de 2011

Priapeia de circunstância

I


Festa à fantasia. Reencontro a rigor. O tema, grafitado nas paredes, multicor.


Círculo gostoso, endomingado. Calor humano. A esfinge - pernas abertas em vórtice - e outras bundas bloqueavam a cerveja. A mais quadrada: Tebas, cidade das sete portas em papelão. Como era distante a lembrança da tragédia cruenta, ocidental! Aparecia, mas sem sangue ou fervores. Camaradagem de vivência. Apenas. Corações veteranos. E as mãos, acalentadas no braseiro do possível.


Como beber esperança, nos copos das festinhas de crianças. Grandes temas, humanos e vivos, mas em escala de hoje-em-dia. Bonita alegria etílica, sem peso, engolfando os problemas do presente: serpentinas no fog paulista, com bocas tingidas de roxo, Lambrusco em promoção. Prosa descalça pontilhada pelo media player, em loop.


Se o fraque aperta o corpo da figura bruxuleante, as pernas, céleres e graciosas, foram feitas para dançar. Mas, de chofre, propôs-se a desafiante. Duas mãos, esmalte vermelho, grifos nos joelhos do mistério. O ipsilone, já não mais aberto para o céu de brasilite, tremulava.


- Posso pegar uma cerveja?

Chamas, e sob o alarme do estado de sítio, os comparsas, ridentes, encabulados, deixam um a um a plataforma. Presença, só de espírito.


- Pode sim. Mas antes você tem que responder o enigma...

- Ah, tem que resolver o enigma, para entrar em Tebas?
(grifo da autora)


Preparação para o mergulho na cidade sitiada? Estava sozinha, talvez tivesse ultrapassado, sedenta de sangue, a horda civilizada dos aqueus. Fogo nos cabelos. Maquilagem laranja e purpurina multicor nos olhos afiados. O corpo esguio, arquejado - eterna véspera dos trapezistas! -, projetava-se contra o peito da esfinge.


- Peraí que a esfinge até perdeu o fôlego agora...


E por dez segundos, na câmara milenar, o ar rarefeito martelou sem descanso a tumba dos faraós embalsamados. Oh, despertai cadáveres embalsamados! Rompei a fina demão do verniz arcaico! Os manuscritos de Alexandria já desapareceram nos desertos da Macedônia! Inútil, pedra só a esfinge. Decifrasse Venus de Citera o epigramático abracadabra:



_ O que é o que é? Quando você põe na boca, desce queimando; mas se der certo, explode?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Quand je pense à la Revolution j'ai envie de faire l'amour

A frase, tatuada, dá voltas em seu ombro. Já não me lembro se no esquerdo ou no direito...

Enquanto ela lê O lobo da estepe, ondas vagarosas escorrem sobre as pedras.

O ar é de remanso.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Chocolate Jesus

O rádio toca baixo. Mais para distrair a cabeça do que para ser ouvido. Cumpre sua função, espelhando daqui de dentro do apartamento os ruídos lá de fora; as notícias da tarde, os boletins de urgência substituindo o lento degradê da luz, que se advinharia nos azulejos se o sol batesse deste lado da avenida. Conheço esta canção que acabou de começar. A paisagem íntima já não caminha mais tão lenta. Sim, é Chocolate Jesus, do Tom Waits. Estou desperto, me deixo levar um instante pelo cantor bebão, divertido, mau humorado.


Well it's got to be a chocolate Jesus
Make me feel good inside
Got to be a chocolate Jesus
Keep me satisfied


Mas logo alguma outra coisa começa a acontecer. Tento me concentrar no prazer leve de segundos atrás e já não consigo. O sol de repente se apaga e todos os cômodos do apartamento são engolfados de súbito cinza. Os carros deixam de cruzar a esquina por um momento. Ouço um estrondo. No quarto?Oh, esta canção pobre, rombuda, tocada com raiva, martelada nos ouvidos, me lembra a batida das três portas antes da cena... o cabelo solto, o pijama de coraçãozinho, a mão apoiada na janela, os pés descalços no gelado parapeito. O rosto decomposto... Meu Deus! Meu Deus! Eu sei que as coisas não são assim. Mas às vezes não consigo me concentrar nessa sabedoria. Outro dia, andando na rua, eu estava prestes a me jogar debaixo de um caminhão. Só não fiz isso porque, de repente, uma florzinha amarela caiu de uma árvore, bem na minha cabeça. Ela era tão bonita que me distraiu e eu pude chegar em casa. Hoje, eu não aguentei. Mas o que pode uma florzinha, eu não pude! Nem todo chocolate do mundo poderia quando o tempo fechou de verdade!

Nem deveria ter podido! É loucura confiar tanto assim nos homens, no comercial da Lacta, no estômago, na serotonina, no acaso de uma folha que não aguenta mais a secura do outono e despenca! Se bem que essa não era sua loucura. Era sua paradoxal e repentina sanidade. Louca era sua crença de menina, de filha, de arrimo de si mesma, de esmerada professora de inglês. Louca! Louca para depositar esperanças num certo nobre cavaleiro gótico reanimado por novelas, habitando os olhos anuviados do rebotalho de namorado que, agora, está bem ali, ao pé da porta, desesperado!Não, meu amor!, ali não há cavaleiro algum. Não adianta atiçá-lo com brasa, fazer com que ele percorra distâncias fabulosas! É inútil arrancá-lo de uma só vez de sua aldeia, raspar de supetão o tacho de cobre em que fervem todas as suas bobeiras de adolescente. Achar que disso pode-se moldar um homem... É inútil! Tão inútil quanto ter quebrado metade do quarto em seguida! Não bastou, não foi o suficiente! Era a decisão errada. (Decisão... como decidir qualquer coisa? quando os caminhões não param de passar?!). Era melhor que a fuligem não tivesse nublado a sua vista, nem a minha. Era preciso que os dois se despissem das ilusões, com calma e carinho, juntos. Que as deitassem com mão leve, num baú de feltro verde, uma a uma.Ah, estupidez, miséria! Tornei-me tão porco que às vezes tenho vontade de voltar no tempo e poupar a dor de cabeça do caminhoneiro. Queria acabar com aquilo de uma vez; num sopro, num peteleco!

Mesmo sabendo que seria inútil. Mesmo sabendo que os carros continuariam passando e que as dívidas continuariam chegando pelo correio semanalmente! Mesmo sabendo que a Fisk continuaria pagando 12 a hora para seus escravos! Ciente de que a comida ainda iria parar no armário da amante do pai, tão afogado em dívidas quanto a filha! Careca de saber que a mãe ainda assim não moveria uma palha, vivendo à beira-mar em Fortaleza! Que a irmã não perderia um compromisso sequer na Bosch e treparia com mais força com o namorado venezuelano para chegar bem cansada em casa e não reparar em nada! Que as amigas virariam a situação contra mim, salvando-se na memória dos anos queridos da desgraçada e esquecendo de ligar no dia seguinte. Que o buquê de flores amarelas que comprei pra ela também no dia seguinte inevitavelmente murcharia...

Murcharia, não. Como a desgraçada, se esfacelaria e se integraria ao asfalto imperturbável. Assim como o pai que continuaria suando no forró a graxa da oficina hipotecada, chacoalhando a mulher sem emprego e com três filhos pra criar. Assim como a mãe, mais bronzeada do que nunca e beneficiária fantasma do INSS, fingindo que vive de quentinhas. Assim como a irmã promovida à gerência, com um apê aqui, outro em Caracas. Assim como as amigas gastas, gordas, pelancudas, histéricas, escória provinciana, vacas bêbadas babando Contini, esfregando-se nas paredes do Madame Satã, acalentando o tédio remelento no Dark Room, visitando uma vez por ano a desgraçada, já meio frias e preferencialmente no aniversário...


Sim, tudo mudou e segue inalterado ao mesmo tempo. Deu-se à vista, sem oferecer perspectivas. Sim, tenho essa história inteirinha na palma da minha mão. Conheço tudo o que ela foi e o que ela poderia ter sido. Conheço este passado. Com um esforço que nem consigo descrever, pus um ponto final nele, mudei-me, mergulhei de cabeça na selva da cidade, apanhei, sofri, continuo de pé. E, no entanto.... estou perdido! Tornei-me vil, porco, revoltado e niilista! Como a louca, fui presa das minhas ilusões. Assimilei-me ao herói impotente, ao perverso anacoreta, ao misantropo inimigo da vida que sempre esteve aqui e que desde estão, cada vez mais forte, não tem cessado de crescer dentro de mim. Tornei-me um estúpido rancoroso bem pensante que grita aos quatro ventos a corrupção do mundo e nas horas vagas remói seus tormentos, sozinho, procura-os nos livros, faz acrobacias com eles neste bloguezinho, cultivando-se para nada! Tarde demais. Tudo o que é dádiva e graça e leveza na vida não subsiste; estiola, apodrece, e da crosta do tecido humano calcinado, vive a mais eficiente mentira que já inventaram, em tudo banal, cotidiana, tão evidente que é como se sustentasse cada ser vivo como o ar imprestável desta cidade que os pulmões aspiram. Oh, miserável celofane em que os homens se embalaram para não perceber que a vida nada mais é do que decadência e sofrimento! Milhões de cabeças dedicadas a este nó cego, esta incrível confusão translúcida, evidente. Banal. Algo digno de ser despachado e sumir ao sabor da mais recente pesquisa de mercado, segundo o humor ocasional do cliente, em cada loja de conveniência...


Chega! Não aguento mais esse tom de autopiedade, esse grito martelado, a nota de arrogância que o acompanha (no fundo, a mesma que me fez ficar de pé diante da ira santa da cavalaria e ser esmagado pela mais manquitola de suas éguas). A memória da louca mexe comigo, me leva para um lugar em que eu não quero mais estar. Mesmo depois de a ter espantado como uma mosca varejeira. Mesmo depois de muita lama estagnada sob a ponte...


Chega. É tarde. A música já acabou... escorrem do rádio as notícias do dia, em retrospecto. Hora de consultar a agenda e ver o que me espera no dia seguinte...Não tenham dó de mim. Não sintam raiva de mim. Não me achem fraco. E sob hipótese alguma se compadeçam com esta confissão idiota feita pra não durar. Sobretudo não se deixem levar pela minha desgraça ou a dela: nenhuma piedade para a moça que tentou fazer com vertigem o que se deve fazer devagar, deixando brechas, para que a vida, com seus incansáveis ardis, combata a morte em cada canto do planeta, em cada cabeça, em cada coração. Comam chocolates... riam, chorem ou não deem a mínima... mas por outras coisas.


Na verdade, não. Num último momento de ousadia, eu só gostaria de pedir uma coisa, se não for abusar demais da boa vontade de vocês. Aliás, nem é bem pra vocês que peço, é mais pro acaso: queria que a inteligência sem alarde, a humanidade preservada a alto custo e a graça singela - embora cáustica - da canção do Tom Waits, vencesse o cansaço em cada um de nós. Ou melhor, algo mais simples: que um dia, antes de entrar no metrô ou no coletivo, de repente, um barulho de lata ou de violão desafinado atravessasse vossas equilibradas cabeças, entortasse por um momento vossos afinados ouvidos. E que vocês, angustiados pelo ônibus que não chega, pensassem por um segundo - impossível que seja -. que o vira-lata deitado debaixo do banco em que dorme o mendigo não está dormindo e sim, na verdade, uivando, sem lua:


when the weather is rough
and it’s whisky in the shade
it's best to wrap your savior
up in celophane

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Amor (ou diálogo que cresce de dentro pra fora e de baixo pra cima)


Ah, meu, não tenho muito o que falar disso. Eu tava esperando uma coisa, tava com a cabeça em um lugar, você em outro. Eu te disse. Eu tava apaixonada, você não [...] a gente escolheu ficar enquanto partia [...] você pra dentro desta cidade; eu, pra fora [...] Não sabia que ia viver um negócio assim, essa atenção[...]

Namorei com um cara, inclusive, diretor de teatro, uns 40 anos. Foi bacana, agora já acho que não sei. [...] Como por quê? O que um diretor faz? Ele manda. Autoritário, meio perigoso pra mim. Ficou sem resolver até o fim do ano. Tá tudo meio assim. [...]

É que, bom, é complicado. Eu saí de lá da minha tia, aconteceu tudo isso e, agora, tô ficando na casa de um amigo. [...]

Mas é outra a vida lá. É outra coisa. O tempo passa devagar, todo mundo sabe da vida de todo mundo. Bom pra ficar consigo, acompanhado, vários conhecidos, mas sozinho, pensando [...] E tem essa: muita fofoca. Juro. Eles vão perguntando as coisas de um jeito, na gentileza, e, quando você viu, já falou mais do que queria e eles sabem tudo de você e você nada deles [...]

É verdade isso. Não é brincadeira. [...] Vamos, o sol tá quente... ali por baixo da praça é melhor, só falar oi pros meus amigos ali do outro lado [...] Ele me perguntou se você era do DENARC, acredita?

Com a minha mãe. A gente deu uma volta aqui pelo bairro, na virada. Bastante gente na rua, foi legal. Fazia tempo que eu não passava aqui em São Paulo [...] Não, eu tentei ir com uns amigos e não consegui, eles atrasaram. Comprei o ingresso e tudo. Perdi [...] Este sábado à noite? [...]

Desculpa a demora, tava procurando o guarda-chuva e... eu sei que não dá nem um quarteirão [...]

Mas, sabe o que é? É que é meu último dia aqui, combinei de ver uns amigos. A gente vai ou não? Será que a gente chega? Até o Eldorado é quinze minutos de ônibus. Pode não dar [...]

Ver um filme aqui é legal também [...]

Não é verdade que da outra vez eu também tirei o sapato e abri sem pedir licença. É? [...]

Acho que a gente nunca vai ter que pedir licença um pro outro [...] Daquele seu blog, por exemplo, o segundo, eu tinha a impressão de que você estava muito triste [...]

Vou te falar como se diz "entrar sem pedir licença" em uma palavra azul-escura [...]

[...] você põe letra?

sábado, 17 de outubro de 2009

Desta janela, sozinho

Esta moça que abre agora a janela em frente à minha, me cumprimenta, diz para marcarmos um jantar qualquer dia desses e, finalmente, se despede, soprando um beijo com a mão espalmada, me lembra uma outra.

Seu nome é Flavia Lima. Tem 15 anos e é aluna do 1B. Senta-se de costume na terceira carteira da fileira à esquerda do professor, colada na parede, junto às demais meninas de sua "turma" (Carol, Julia, Camila, Bruna, Aline, Ana e assim vai).

Quem é sua turma? Uns dois meninos que conheço, é bem verdade; mas, em geral, as demais meninas de sua classe.

Todas? Não. Só as que sejam preferencialmente loiras, preferencialmente tenham olhos azuis (os dois ), falem bem, sejam desenvoltas e nunca deixem de se produzir quando vão pra escola (lápis, ok; sombra, não; chapinha, imprescindível).

Além dessas, também aquelas cujos pais têm dinheiro (não precisa ser muito, mas não pode ser pouco) e aquelas cujos nomes circulam sem segredo na boca dos meninos mais bonitos e admirados.

Elas são amigas? Podem até ser, mas é bom não exagerar nessa afirmação.

É que, se a gente fosse imaginar uma história contando um dia na vida de Flavia Lima, já na primeira cena seríamos obrigados a inventar alguma rusguinha pessoal, alguma intenção decepcionada, alguma conjunção passageira de interesses que depois virou ódio mortal (namorado roubado, cola regulada, roupas emprestadas e nunca devolvidas, sucesso demais pra uma desprezo pra outra na enquete da semana etc.)

Se fosse americana, seu nome seria Tiffany. Barbie e a Xuxa são seus perfeitos decalques em plástico. Como elas, Flavia também tem casa, carro e namorado de brinquedo.

Quando ela abre a boca, sua voz esganiçada vem disfarçada num tom ondulante, com acentos longos e irritantes em sílabas anasaladas. Em tal roupagem sempre alegre vêm vestidas, é claro, enormes e estravagantes abobrinhas, que, por incrível que pareça, nunca tardam a encontrar ouvidos dispostos a cozinhá-las em fogo baixo.

Sim, ela é bela, assim, em estado de manequim. Mas talvez seja ainda mais bonita quando seu corpo se agita ao soprar do vento. E também quando ela, cansada, se senta de novo e, como se um dispositivo mecânico ligado a um detector de atenção captasse os olhares ao redor, retorce sua arrojada maquinaria de carne, pele e ossos numa postura sensual.

Passou no corredor, uma ondinha de calor sempre esquenta nossas bochechas. A rapaziada se coça, se irrita, bate a mão na testa. E tem sempre aquele que é tragado da cadeira, vai flutuando em seu encalço, pra logo em seguida, bum, estatelar-se na lousa.

E lá se vai ela, fazendo a curva rumo à mesa do professor, que detesta, mas precisa cativar, com um olho no boletim e outro na balada de sexta-feira.

Como eu disse, essa é Flavia Lima. É Flavia, nome comum de 1950 pra cá, característico de menina tipo pricesinha de classe média. É Lima, sobrenome nem muito vultoso (como Almeida Prado ou Telles), nem muito comum (como Silva).

Rodando o relógio sessenta anos para trás, ela já não se chamaria mais Flávia, nem desfilaria seu corpo leve nas alamedas da minha classe de 1o ano do colegial, falando alto, deixando um rastro de perfume, balançando os cabelos loiro escuros tingidos, exibindo as coxas e a tatuagem de estrelinha no tornozelo esquerdo.

Talvez pudesse se chamar Maria Aparecida.

Seria filha de comerciante, mas o ofício de seu pai não transpareceria nas roupas que usa, pois seu composé seria, como o de todas as demais alunas, uma daquelas típicas camisas de linho branco, o paletozinho azul marinho, a saia de pregas, a meia alta e o sapato de fivela. Toucaria seu rosto delicado um pequeno topetinho armado com grampo, único adorno que, mesmo assim, faria com que destoasse das demais meninas da classe, ainda afeita às trancinhas do secundário.

Seu namorado não seria de plástico, nem menino, nem um pretendente qualquer morando dentro de um garoto qualquer numa carteira qualquer daquela classe. Estaria no quintal de Sr. Alceu, sorvendo o último gole de sua xávena de café, enquanto pensa numa maneira sutil de demonstrar seus dotes ao pai, que já planejou a negociata há muito tempo.

Todo o setting escolar seria diferente, também.

Ela levantaria a mão antes de se levantar, pedindo permissão. Não olharia para ninguém enquanto passa no corredor. Os meninos, também, teriam os olhos pregados nos Prolegômenos elementares de Trigonometria, sucumbindo com intensidade igual à nossa a uma imaginação amorosa mais casta. As outras moças dariam risinhos abafados, ou permaneceriam sérias, remoendo a inveja em silêncio (ou então, pode ser que não percebessem a cena, distraídas com o ponto do tricô que fazem escondido por debaixo da carteira).

Quando ao invés de se dirigir à mesa do professor ela saísse direto pela porta da sala, um inspetor de classe intrometido perceberia que ela anda um pouco mais rápido do que de costume nesta bela manhã de sol. Sim, de fato ela caminha ligeiro, pois está ansiosa para chegar em casa onde Jaime, homem que conheceu na matinê do Cine Bilon, executa ponto a ponto o pedido de casamento planejado pelos dois depois da sessão de Casablanca, estreia da semana passada.

Mas se, por obra de um acaso qualquer, antes de chegar à porta principal do colégio, Maria Aparecida escorregasse no chão de mármore recém-encerado do pátio, uma tragédia aconteceria. Jaime, seu cotado e (coisa incomum na época) apaixonado pretendente, ficaria a ver navios. Ou quase. Casar-se-ia com Francisca, prima de Maria, arrebataria a venda de Sr. Alceu, alcançaria destaque na coluna local ao transformá-la em boutique. Depois faria da notoriedade pública carreira política ascendente e segura. Por fim tornaria-se adido à embaixada do país, e morreria no Cantão, amargurado de amor, ainda que com a gloria cívica assegurada.

Pouco antes disso, no entanto, Sr. Alceu e Dna. Maria pegariam mania de vestir luto no aniversário da menina e dariam jantares para os íntimos a cada um dos tristes anos completos desde o fatídico evento. Evento aos quais Jaime sempre compareceria.

Agora ele acaba de chegar de um desses jantares. Está exausto do esforço de fazer-se polido para a família a que pertence não muito bem como gostaria. Uma vez devidamente empijamado, logo depois de fazer a higiene pessoal sem prestar muita atenção, puxa uma cadeira para bem diante da janela de seu quarto (que dá de frente para o coreto principal da cidade) e se diverte imaginando ali, do outro lado da praça, mão de moça fechando uma cortina e deixando coar no ar seco do interior a frestinha de luz que faria de sua noite uma outra noite pouco menos noite do que esta.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O sono dos justos

São 3h da manhã e eu acabei de despertar. Dá uma sensação esquisita, incômoda, irritante.

Antes eu até gostava dessa história de ficar acordado à noite, ouvindo os sons misteriosos da rua, olhando as coisas com mais calma, me absorvendo em pensamentos, lembranças. Agora não gosto mais, não.

Na verdade, sempre que passo da hora de dormir, me sinto como um velho pedaço de engrenagem girando em falso dentro de um relógio desregulado...

Tinha colocado o alarme para as 6h da manhã. Não costumo fazer isso. Em geral minhas atividades começam depois das 9h e 30, banho e café tomados. Sou autônomo, faço meu próprio horário. Mas o caso é que, mesmo a contra-gosto, coloquei.

Pra ser sincero, não é de hoje que vivo me estranhando com essa impertinente maquininha de jogar gente no mundo que dorme ao lado da minha cama todos os dias (às vezes sem mim) chamada despertador.

Os adultos repreendem as crianças por falarem palavrão, por chegarem sujas em casa, por brigarem na rua, trancarem-se no banheiro. Contra isso, eu, quando criança, guardava sempre comigo a impressão de que a verdadeira coisa indigna fosse essa história de acordar antes do dia raiar e passar a tarde encafuado em algum lugar inatingível a olhos humanos.

Sem pensar nas pessoas.... não dá uma dó tremenda? Está lá a madrugada, em paz, escoando seus perfumes, seus contornos fugidios, sem nenhum barulho, apito ou grito a importuná-la. Seus cabelos escuros se estendem horizonte à fora, servem de coberta para todos. E ela segue, fazendo firulas que não se vê, lançando ao largo os braços transparentes, leves, de ninguém... De repente, sem avisar, passa o primeiro ônibus estraçalhando sua calma noturna. Seguem-lhe dois ou três carros intrometidos. Ouve-se uma freada ao longe. E logo já não se sabe o que é este barulho: o vento balançando as àrvores ou um monstro irritadiço qualquer, assoviando alto sua pressa de alumínio, girando, perto, longe, perto, longe, em espiral, desatando o céu escuro e amarrando juntas as ruas perdidas no mapa, com seu cordão de fumaça e arrepios...

Mas hoje não é caso de amor à madrugada. Não mesmo. Pus de verdade o relógio para as 6h, determinado a acordar cedo.

Fiz isso pensando no trabalho desta semana, que tenho que entregar na editora até as 13h; na casa, que tenho que arrumar durante o dia. São coisas importantes, não posso perdê-las de vista (ao contrário dos carros, que me atravessam e que não conheço).

O certo mesmo é que aceitei ceder ao despertador mais por um mínimo senso de autopreservação do que por qualquer outro motivo. Pois acontece que, há uma semana, virei uma noite em claro e, desde então, tenho vivido recluso e insalubre feito um vampiro (a madrugada não é mais tão bonita...).

Nos primeiros dias acordei por volta do meio-dia. Logo nos dias seguintes, fui empurrando o horário pra mais tarde. Eis que um belo dia (sexta, sábado da semana passada? Não sei...), despertei às 17h. Noutro (certamente essa semana), encarei o relógio espantado: 19h. E, ontem, vergonha máxima, perdi totalmente o controle: levantei da cama e fiz meu café pontualmente (?) às 23h...

Faz pouco tempo, ouvi no rádio um cara dizer que os horários em que se dorme e come são como que a condição básica pra cabeça da gente funcionar direito. Duvidei, na hora... Afinal, se fosse assim, o mundo inteiro estaria variando. Quem hoje não come às pressas e às vezes pula refeições? E os vigias noturnos, o que dizer deles? No mínimo deveriam ser internados em casa de saúde... Tudo biruta. Além disso, quem bota a mão no fogo pelas receitas de bem-estar do Dr. Soporíferus Tranquilis, fone 3456-5478, e-mail durmaempaz@mistersleep.com? Quem garante que aquelas sábias palavras não foram gravadas às 3 da manhã para entrar no ar bem naquela hora?

Tudo isso é de se pensar.

Agora... ninguém apaga o fato de que eu sinto todo o meu corpo latejando, a cabeça inchada, a boca sarrenta. Ninguém me consola da culpa de ter perdido todos os bons compromissos da semana. E, como se não bastasse, quem é que vai arrumar minha casa, um verdadeiro caos, enquanto eu vago pelas ruas desertas da cidade em busca de uma jugular quentinha pulsando o sangue sadio da vida de paz e alegria que eu nunca conheci?

É por essas e outras razões que, para hoje, estou planejando fazer um esforço de recuperação da manhã.

Chego mesmo a jurar: não dormirei até que chegue mais ou menos 23h da noite. E aí, só aí, tomarei um banho quente, colocarei meu pijama de bolinha, o gorrinho de pompom, ajeitarei minha cama com três cobertores e ficarei lá, até que o despertador, meu eterno desafeto, me acorde às 8 da manhã.

Cumprido esse simpático ritual profano, não mais sentirei falta do aceno da madrugada passando pela janela do meu quarto. E, na falta de outra cena mais tocante, terei de me contentar com o sóbrio e funcional mundo dos vivos, no chamado "dia seguinte".

Sairei bem cedinho rumo à padaria e pedirei meu já costumeiro misto-quente-com -café-com-leite, que comerei calado (não gosto de conversar de manhã). Voltarei para casa e arrumarei a cozinha ouvindo despreocupado as notícias do dia (ou melhor, as poucas desgraças que os jornais, agora, colocam no meio das 3468 dicas de bem-estar e investimento com que eles nos brindam). Em seguida, responderei a mensagens eletrônicas, composto e responsável nas profissionais, efusivo nas privadas. Tudo isso para logo depois mergulhar com afinco na revisão da semana (durante a qual farei um esforço para não perceber que tenho variados complexos adquiridos por meio do imponderável mas certo entrelaçar-se das neuroses de meus pais).

Durante todo esse tempo, o meu celular estará ligado, mas não receberei ligações. Um pouco porque estarei ocupado; um pouco para dar a impressão de que me absorvo totalmente no que faço. Principalmente porque é bom manter distância dos conhecidos e afetos durante a semana (até para ter o que contar depois...).

Se tudo isso transcorrer como previsto, logo que chegarem as tão esperadas 23h de hoje, finalmente terei sono. E aí, tendo vivido sem ênfase o dia, cumprido diligentemente todas as minhas obrigações, estando acaso também de posse de todas as partes do meu corpo e dos meus sentimentos (ambos conciliados pela rotina), dormirei sem solavancos o sono dos justos.

E se, como acontece aos demais seres diurnos, enquanto eu estiver ausente da convivência humana, alguma coisa atravessar minha cabeça dormente, espero desde já que não seja o novo semblante tumular das madrugadas e sim a imagem de um dia tão equilibrado, lúcido, regular (e absurdo na sua falta de sentido) quanto o que viverei hoje.

Desejem-me sorte.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mata-borrão

Certa noite, quando era menino, sonhei que era uma pedra.

Bem no dia seguinte, por um acaso, a professora deu como tarefa de classe desenhar o que a gente gostaria de ser não tivesse caído na terra em forma de gente. Era uma atividade especial, dessas que têm cara de "artes" no primário, planejada para desenvolver a imaginação e tal.

Imaginação, contudo, era justamente o que me faltava ali. Passei toda a primeira parte da aula coçando a testa, riscando daqui, dobrando as pontinhas da folha de lá... e nada. Espremi a cabeça por mais uns dez minutos e, não sei se pensei no meu sonho ou não, mas o fato é que, num dado momento, o que saiu no papel foi uma coisinha esquisitíssima, uma bolinha meio torta, em tons escuros quentes. Sim, olhando meio enviesado, de fato era uma pedra. Estava ali, para qualquer um que quisesse ver, exposta em cima da minha mesa, quase em alto relevo...

Nao sei o que aconteceu em seguida. Dentro de instantes, era eu quem estava diante da tia Julia, ou melhor, ao lado dela, que espiava meu desenho, por cima do meu ombro esquerdo. Ela olhava, olhava, olhava a pedrinha e nada de dizer alguma coisa... O tempo foi passando e ela continuava ali, empoleirada na cadeira, observando o que eu tinha feito (e minha mão tímida imperceptivelmente se deslocava, pousando entre o borrãozinho e a carteira vizinha).

Ela continuava ali, fazia tempo já. Muito tempo. Tempo suficiente pra que eu começasse a me incomodar, como se tivesse feito alguma coisa errada, roubado alguém, xingado a mãe do diretor... dançado na chuva e brincado de lutinha com o Gabriel e o Finatti... tomado chute no saco da Isabella e puxado os cabelos dela... e depois, no fim, tomado esporro da Tia Nega... a tia mais brava da escola!

E aquela pelota no meu papel? O que ela iria pensar? Que era preguiça da minha parte, certamente. Ou então, que fosse uma coisa genial, de outro mundo, feita para se admirar aos poucos, com olhar clínico.

Nada disso. Ela olhou bem o meu desenho, ainda de longe, e me perguntou:

- O que é isso, Vinicius?

- Uma pedra, pssora - eu disse baixinho, cortando a pergunta, com receio dos outros e do carimbo escarlarte, escondido no bolso da calça dela, prenda para alunos desaforados.

Ninguém ouviu, ainda bem. E ela estranhou, sim, mas não me reprendeu com um "refazer". Embora, logo em seguida, tenha pego a folha da minha mesa, posto bem rente aos olhos e, como se conversasse com o próprio desenho, dito, meio resmungando:

- Com tanta coisa que você poderia ser, você escolheu uma pedra?

E eu:

- Sim, professora, queria ser uma pedra.

Percebi que ela não gostou da resposta. Mas não estava disposto a inventar outra coisa. A tia Júlia também era insistente, e agora fazia ecoar seu vozeirão rouco por detrás da folha, como se fosse a própria pedra a me confrontar:

- Bem, Vinicius... isso pequenininho no meio da folha não me parece uma pedra. Não tem nada a ver com uma pedra. Olha só, como está cheio de cor...

Pensei um pouco e achei que aquilo fazia sentido. Pra ser sincero, a pedra é o que eu imaginara. Já o desenho, que dependia da cor para viver, não era uma pedra. O que se via, em verdade, era mesmo só as pelotinhas de cera, espremidas umas sobre as outras, lutando entre si, num redemoinhozinho informe...

Tia Julia tinha lá sua razão... e eu estava pronto a admitir isso, quando me dei conta de que ela já não estava mais lá e sim no outro canto da sala, olhando o desenho dos outros.

Nesse momento, não tive dúvidas, abri de novo a caixa de giz de cera e desenhei mais umas coisinhas, riscando o papel um pouco mais forte ainda do que tinha feito antes.

Quando ela voltou, já chegou dizendo:

_ E aí, Vinicius? Deixa eu ver o que você fez com a sua pedrinha...

Era um bonequinho, também colorido, agora com as cores separadinhas, bonitinhas. Cabeça bordô, bracinhos verdes e perninhas azuis...

... chutando a pedra.