São 3h da manhã e eu acabei de despertar. Dá uma sensação esquisita, incômoda, irritante.
Antes eu até gostava dessa história de ficar acordado à noite, ouvindo os sons misteriosos da rua, olhando as coisas com mais calma, me absorvendo em pensamentos, lembranças. Agora não gosto mais, não.
Na verdade, sempre que passo da hora de dormir, me sinto como um velho pedaço de engrenagem girando em falso dentro de um relógio desregulado...
Tinha colocado o alarme para as 6h da manhã. Não costumo fazer isso. Em geral minhas atividades começam depois das 9h e 30, banho e café tomados. Sou autônomo, faço meu próprio horário. Mas o caso é que, mesmo a contra-gosto, coloquei.
Pra ser sincero, não é de hoje que vivo me estranhando com essa impertinente maquininha de jogar gente no mundo que dorme ao lado da minha cama todos os dias (às vezes sem mim) chamada despertador.
Os adultos repreendem as crianças por falarem palavrão, por chegarem sujas em casa, por brigarem na rua, trancarem-se no banheiro. Contra isso, eu, quando criança, guardava sempre comigo a impressão de que a verdadeira coisa indigna fosse essa história de acordar antes do dia raiar e passar a tarde encafuado em algum lugar inatingível a olhos humanos.
Sem pensar nas pessoas.... não dá uma dó tremenda? Está lá a madrugada, em paz, escoando seus perfumes, seus contornos fugidios, sem nenhum barulho, apito ou grito a importuná-la. Seus cabelos escuros se estendem horizonte à fora, servem de coberta para todos. E ela segue, fazendo firulas que não se vê, lançando ao largo os braços transparentes, leves, de ninguém... De repente, sem avisar, passa o primeiro ônibus estraçalhando sua calma noturna. Seguem-lhe dois ou três carros intrometidos. Ouve-se uma freada ao longe. E logo já não se sabe o que é este barulho: o vento balançando as àrvores ou um monstro irritadiço qualquer, assoviando alto sua pressa de alumínio, girando, perto, longe, perto, longe, em espiral, desatando o céu escuro e amarrando juntas as ruas perdidas no mapa, com seu cordão de fumaça e arrepios...
Mas hoje não é caso de amor à madrugada. Não mesmo. Pus de verdade o relógio para as 6h, determinado a acordar cedo.
Fiz isso pensando no trabalho desta semana, que tenho que entregar na editora até as 13h; na casa, que tenho que arrumar durante o dia. São coisas importantes, não posso perdê-las de vista (ao contrário dos carros, que me atravessam e que não conheço).
O certo mesmo é que aceitei ceder ao despertador mais por um mínimo senso de autopreservação do que por qualquer outro motivo. Pois acontece que, há uma semana, virei uma noite em claro e, desde então, tenho vivido recluso e insalubre feito um vampiro (a madrugada não é mais tão bonita...).
Nos primeiros dias acordei por volta do meio-dia. Logo nos dias seguintes, fui empurrando o horário pra mais tarde. Eis que um belo dia (sexta, sábado da semana passada? Não sei...), despertei às 17h. Noutro (certamente essa semana), encarei o relógio espantado: 19h. E, ontem, vergonha máxima, perdi totalmente o controle: levantei da cama e fiz meu café pontualmente (?) às 23h...
Faz pouco tempo, ouvi no rádio um cara dizer que os horários em que se dorme e come são como que a condição básica pra cabeça da gente funcionar direito. Duvidei, na hora... Afinal, se fosse assim, o mundo inteiro estaria variando. Quem hoje não come às pressas e às vezes pula refeições? E os vigias noturnos, o que dizer deles? No mínimo deveriam ser internados em casa de saúde... Tudo biruta. Além disso, quem bota a mão no fogo pelas receitas de bem-estar do Dr. Soporíferus Tranquilis, fone 3456-5478, e-mail durmaempaz@mistersleep.com? Quem garante que aquelas sábias palavras não foram gravadas às 3 da manhã para entrar no ar bem naquela hora?
Tudo isso é de se pensar.
Agora... ninguém apaga o fato de que eu sinto todo o meu corpo latejando, a cabeça inchada, a boca sarrenta. Ninguém me consola da culpa de ter perdido todos os bons compromissos da semana. E, como se não bastasse, quem é que vai arrumar minha casa, um verdadeiro caos, enquanto eu vago pelas ruas desertas da cidade em busca de uma jugular quentinha pulsando o sangue sadio da vida de paz e alegria que eu nunca conheci?
É por essas e outras razões que, para hoje, estou planejando fazer um esforço de recuperação da manhã.
Chego mesmo a jurar: não dormirei até que chegue mais ou menos 23h da noite. E aí, só aí, tomarei um banho quente, colocarei meu pijama de bolinha, o gorrinho de pompom, ajeitarei minha cama com três cobertores e ficarei lá, até que o despertador, meu eterno desafeto, me acorde às 8 da manhã.
Cumprido esse simpático ritual profano, não mais sentirei falta do aceno da madrugada passando pela janela do meu quarto. E, na falta de outra cena mais tocante, terei de me contentar com o sóbrio e funcional mundo dos vivos, no chamado "dia seguinte".
Sairei bem cedinho rumo à padaria e pedirei meu já costumeiro misto-quente-com -café-com-leite, que comerei calado (não gosto de conversar de manhã). Voltarei para casa e arrumarei a cozinha ouvindo despreocupado as notícias do dia (ou melhor, as poucas desgraças que os jornais, agora, colocam no meio das 3468 dicas de bem-estar e investimento com que eles nos brindam). Em seguida, responderei a mensagens eletrônicas, composto e responsável nas profissionais, efusivo nas privadas. Tudo isso para logo depois mergulhar com afinco na revisão da semana (durante a qual farei um esforço para não perceber que tenho variados complexos adquiridos por meio do imponderável mas certo entrelaçar-se das neuroses de meus pais).
Durante todo esse tempo, o meu celular estará ligado, mas não receberei ligações. Um pouco porque estarei ocupado; um pouco para dar a impressão de que me absorvo totalmente no que faço. Principalmente porque é bom manter distância dos conhecidos e afetos durante a semana (até para ter o que contar depois...).
Se tudo isso transcorrer como previsto, logo que chegarem as tão esperadas 23h de hoje, finalmente terei sono. E aí, tendo vivido sem ênfase o dia, cumprido diligentemente todas as minhas obrigações, estando acaso também de posse de todas as partes do meu corpo e dos meus sentimentos (ambos conciliados pela rotina), dormirei sem solavancos o sono dos justos.
E se, como acontece aos demais seres diurnos, enquanto eu estiver ausente da convivência humana, alguma coisa atravessar minha cabeça dormente, espero desde já que não seja o novo semblante tumular das madrugadas e sim a imagem de um dia tão equilibrado, lúcido, regular (e absurdo na sua falta de sentido) quanto o que viverei hoje.
Desejem-me sorte.
Mostrando postagens com marcador O sono dos justos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O sono dos justos. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)
