terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um professor, não um professor de colégio...

Desde terça passada, tenho meu primeiro aluno de redação. Isso faz de mim professor de Redação, ou pelo menos deveria fazer.

A mãe chegou até meu nome por meio de uma ex-colega, atualmente afogada em prazos, que me passou o serviço. "É tranquilo, Vini. O menino é filho de uma amiga dos meus pais etc".

No dia seguinte, às 9 da manhã, a mulher me ligou...

Passada uma rápida apresentação, ela começa a me explicar o quanto seu garoto vai bem na escola, a dizer que ele não tem nenhuma nota abaixo da média, que parece gostar de Português, coisas do gênero.

Quanto mais ela fala, mais eu estranho a situação. Fico pensando que, não sendo caso de reforçar algum ponto específico da matéria ou de acompanhá-lo nas lições de casa, o serviço talvez exceda minhas expectativas; minhas capacidades, até.

E finalmente, três minutos depois de iniciada a ligação, sou eu quem começo a falar...

Tomando cuidado para não me diminuir muito, deixo claro à senhora - mulher de voz suave e calorosa, embora um pouco agitada - como sou iniciante. Digo que só tive experiência em Ensino Médio, com plantões de atendimento. (Evito dizer que dei aula particular uma vez só, nos 50 minutos que antecederam a desistência da minha aluna, minha ex-namorada, há uns quatro anos...).

Em vão: ela mal me deixa terminar as desculpas, retruca que não quer aulas de reforço. Com certeza quer me tranquilizar, sabendo-me já inexperiente. O efeito é o contrário.

Penso: "Mas, minha senhora, se não quer que seu filho tenha um acompanhameto em suas tarefas escolares, o que quer de mim, afinal?". Estou nervoso. Vou andando pela casa segurando o telefone. Chego à cozinha e, com a mão restante, faço às pressas um cafe.

A sra C. continua sua empenhada explicação.

Ao cabo de sua fala, percebo que ela quer que o menino produza regularmente, pois "o colégio já realiza muito bem o trabalho de base". Para reforçar sua preocupação, faz questão de me lembrar que escrever bem é um aspecto "fulcral" da vida de um adulto que certamente terá de elaborar memorandos, atas de reunião e até, quem sabe, artigos para publicações científicas. No que eu concordo...

Nem por isso deixo de preveni-la mais uma vez: "Veja bem, dona C.. O que eu conheço é o programa comum de Redação. Isso que a senhora está querendo, nunca fiz. Posso tentar, sim, mas fazer nunca fiz...".

Estou prestes a confessar a ela o nível lamentável de nossa preparação pedagógica na licenciatura. Penso em dizer que nunca li uma linha de Piaget, que conheço Vygotski só de nome, que passamos a graduaçao chorando as pitangas da educação brasileira.

Refreio-me; dou um gole no café.

Ela parece pressentir a escapada final e atalha: "Tudo bem, Vinicius. Eu conversei com a L. e ela me disse que você lê bastante e tal. É isso que estou procurando: alguém que goste de ler e de escrever, não um professor particular, não um professor de colégio...".

Quase engasgo com o café...

Enfim, um pouco por necessidade, um pouco por querer tentar a vida de professor, aceitei a empreitada.

Ela pareceu ficar satisfeita com a ideia. Em tom menos exaltado, me passou seus cinco telefones de recado (medida necessária, ja que não se pode atender celular nos plantões) e o resto da ligação ficamos escarafunchando as agendas. Segunda-feira era dia de judô e japonês; terça, de tênis e alemão; quinta, aulas de música... Quarta foi o dia que acertamos. O endereço é tal (o pagamento fiquei de ver).

- Mas, enfim, Dona C., como se chama o seu filho e em que série está?

- Guilherme. Está na quarta série...

Derramei o café.

domingo, 13 de setembro de 2009

Il libero vingatore

Frei Caneca sentido Paulista. Pacotão, por volta dos 30, caminha e bambeia na calçada. Bata roxa sobrando, calça jeans, sandália anabela. Maquiagem ridícula para um dia de sol, chapinha, óculos escuros.

Fala alto, enquanto a mão de pãozinho esmaga um LG b055-al contra a orelha.

Mas não, Luis! Nesta hora você não pode ter coração mole. O papai tem, a mamãe tem, a gente não pode ter... Não interessa, não interessa... se não aceitarem, a gente entra com uma ação de despejo... É muito simples. A lei tá aí pra isso...

Do meio campo, correndo, lá vem Massaro, camisa nove. Passa por um, dois, dá nó na defesa e faz vibrar a torcida napolitana. Chuta cruzado...

Fim de jogo. Fiorentina eliminada do campeonato.

Duas festas

Chegar em festa dizendo "vamos ver se eu me animo" é um problema. Na maioria das vezes a gente não se anima e fica ping-pong, ping-pong, pra lá e pra cá, até sair pior do que entrou.

Na verdade, nem tudo é desgraça desde o começo. Há um momento caloroso.

É claro, você acabou de chegar. Cada um que aparece muda a paisagem, o que é sempre muito agradável pra quem já está na festa e não quer que o caldo empelote. Um corpo esbarra nos demais; surge um ventinho que balança a folhagem. É o que basta: te abraçam, te beijam, mostram-se interessados. Você sorri, fica alegre.

Alegre, não. Mais do que isso, pois até aquele estouro de mulher ruiva, lindíssima, com gestos de bailarina, que você não vê há uns três anos, te olha em cheio, cumprimenta com vontade, conversa, parece feliz em te ver! Você até começa a pensar: "Putz, não é que valeu a pena?".

Aos poucos, no entanto, satanás festeiro começa a tirar as asinhas de fora...

Um dos seus comentários sarcásticos não emplaca. Daí a pouco são as pernas que não funcionam pra dançar. E logo você começa a perceber que não está fazendo mais nada além de caminhar e beber.

A alegria de há pouco se foi. Ninguém mais interage com você e você é dominado pela necessidade de se inibir na conversa (coisa de que, paradoxalmente, você quer fugir falando). Sua boca se mexe, em silêncio: abre, encosta na lata, fecha. E depois de fazer isso umas trezentas vezes, fica rançosa, como os braços, dormentes desde o começo.

Chegou agora e já se sentou? Vão reparar. Você levanta, caminha um pouco e, por um momento, podia jurar que tem sete pernas. Está torto, feio. Corre para o banheiro.

"Hum, não sei não". O cabelo não está bom, espevitou. Todo o resto também não ajuda, afinal você deu pra escolher a pior roupa. Além disso, quem mandou jurar regime e, logo depois, refogar o arroz com bacon? Agora está aí o resultado, o espelho não mente. Ar. Qualquer coisa é melhor do que isso...

Você corre para fora. É bonito o quintal decorado, com a grama meio crescidinha, as coisas fora do lugar para as pessoas se sentirem em casa.

Sim, ali se conversa bem. E se você reparar com atenção, até encontrará, em meio à fauna, outros marcianos como você, misturados aos maconheiros (muito embora não fumem). Eles puxam conversa, te deixam à vontade; mas só até você se interessar um pouquinho. E, finalmente, quando chega a hora mais esperada por eles, ou seja, a de você sustentar o papo... nada... sua boca é uma tumba, de novo.

Também, pudera: está bem mais legal só ver ela dançando ali no fundo da sala, no escuro. Prendeu o cabelo encaracolado com um coque e deve ser a única pessoa no recinto que consegue dançar com os braços ligeiramente levantados e ainda parecer elegante, o corpo leve balançando pra lá e pra cá, prá lá e pra cá, pra lá...

Alguém passa avisando que tem uma mancha na sua calça; ou melhor, gritando a plenos pulmões "Nossa! O que é isso aqui?". Piadinha de cinco minutos, nada de mais. Pelo menos cortou o silêncio embaraçoso. Você dá uma tiradinha sem graça e sai. Encaminha-se, casualmente, à sala de estar. Ela já não está mais lá ( talvez por isso, desacorçoado, você olhará mais catorze vezes para a mancha, impedido que está de chacoalhar o esqueleto ao som de Lulu Santos)

Pior é quando as pessoas são interessantes. As opiniões mais ousadas parecem irremediavelmente superficiais; as conversas mais espontâneas, marcadas; os gestos, ensaiados; os sorrisos, falsos. Tudo te cansa....

Logo em seguida, lá está você, no canto, fazendo esforço para parecer à vontade, mesmo sentindo que está sentado em um formigueiro. Alguns passam, admiram a decoração nacional-popular; capaz que sintam a sua presença, perfilada entre os cangaceiros e o boi-bumbá.

Uma moça atraente (não exatamente a que você queria) chega na roda, para e fica conversando ali de frente. Vira e mexe te joga um olharzinho. Pode estar pressionando o malucão que obviamente está investindo. Pode ser que não, olhou muitas vezes, esperou resposta. "Que legal!"

Legal? Frio, pânico, nada pra dizer....

Também, não poderia ser diferente. Principalmente desde que você decidiu que a melhor maneira de se mostrar disponível é se disfarçando de samambaia. Você desvia o olhar; ela se cansa do seu ridículo joguinho de esconder. Melhor assim...

Algum amigo passa e te cutuca. "E aí, meu? De boas? Tá meio caidão...". "É... semana difícil, muito trampo...". "Pode crer". Dá um gole na cerveja. Clac, tira o anelzinho da tampa. Tosse. Faz pose com a mão na cintura. Por fim, avista alguém de longe. "Vou lá, falar com...". "Sussa, tranquilo, beleza...".

Nesse tempo todo, é claro, você acendeu um cigarro, dois, três. A esta altura, seu maço já era. E aí, pela primeira vez, surge a ideia na sua cabeça: sair pra comprar outro maço e, quem sabe, se mandar dali. Você para e pensa direito. Está sem sono. Não acha bom ir pra casa, assim, ouriçado, com a cabeça em tumulto. Pra completar, adivinha quem está ali naquela outra roda? Custou tanto pra não pensar mais nela... e ela nem te conhecia... imagina agora que conhece...

E você se vê novamente na situação de um adolecente bobo, trombando em tudo, se esforçando para ser o homem que você ainda não é (será um dia?), tudo para se fazer perceber por uma moça que nem te conhece. Fica sonhando, querendo se dissolver naquela cabeleira vermelha, apertar aquela cintura delicada, sentir aquela pele macia no peito, ali, tão perto, tão.perto, tão...

Onde? Sumiu...

"Merda! Melhor ir embora mesmo...". Mas você não veio sozinho. Muito pelo contrário, aliás. Tem umas duas pessoas que dependem da sua carona.

Você checa com os amigos em comum. Estão todos acompanhados, ou de carro cheio. Certo, chamar a rapaziada, então. Você vai e atrapalha a alegria das pessoas, dizendo "Pô, acho que já vou nessa". Daí, de duas uma: se querem ir embora, aceitam de bom grado (mesmo que, para os outros, não deixem de pôr a culpa em você, que já estava mortão a olhos vistos); se não querem ir, enrolam mais meia hora no mínimo.

Resultado: de qualquer maneira você continua irritado e empestando o ar com sua má vontade...

Finalmente chega a hora. Os companheiros estão de posse de seus pertences e acenam, mostrando-se dispostos a partir. Você pula os conhecidos, cumprimentando só os amigos. "Desculpa, gente, tô cansadão... acho que vou pra casa.". " Ah, mas já? E o pior é que você vai levar fulano e fulano com você". Você pensa: "obrigado, agora durmo mais feliz sabendo que vou fazer falta" e mal consegue suportar tanta autopiedade, pois, no fundo, fosse outro o seu humor, você diria a mesma coisa, espantando urubus.

Ligeiramente aliviado de sair dali, você dirige, mecânico. As mãos se esparramam no volante. Em cada músculo tenso de seu corpo, você se sente como se tivesse sido atropelado por uma manada de elefantes, muito embora não tenha movido uma palha na festa.

Seus caronas estão cansados, não conversam. Ainda bem. Você os deixa em casa com um muxoxo amistoso e segue para a sua. Não interessa se o caminho será curto ou longo, pouco antes de você chegar no seu quarteirão, você será atravessado por imagens dos poucos bons momentos da festa. (A que mais vai doer: o close daquele primeiro olhar da ruiva, agora fundido à provavel cena dela partindo com o cara cujo nome ela já trazia tatuado na nuca).

Você vê os postes passando de revés e, por um minuto, pensa que talvez fosse melhor acabar com tanto desassossego. Logo espanta essa ideia, ponderando que abandonar a festa já foi covardia suficiente.

Vai pra casa, dorme e acorda pior do que já estava.

O que fazer?

Bem, tenho até um pouco de vergonha de dizer isso, mas, vá lá, não é nada muito indecente...

Às vezes, se eu fecho os olhos - bem apertados mesmo - e me encolho no sofá no meio das almofadas, minha cabeça faz giros sozinha e eu começo a sentir "coisas". Não dá pra dizer que a gente está sonhando, porque assim não se chega a dormir (talvez, por isso, é quase como se fosse real). Hoje, fiz isso.

E senti aqueles cabelos vermelhos, enormes, maiores do que eu, maiores do que ela, maiores do que a festa; um milhão de cabelos vermelhos e aqueles olhos de mil cores fazendo festa em mim...