Desde terça passada, tenho meu primeiro aluno de redação. Isso faz de mim professor de Redação, ou pelo menos deveria fazer.
A mãe chegou até meu nome por meio de uma ex-colega, atualmente afogada em prazos, que me passou o serviço. "É tranquilo, Vini. O menino é filho de uma amiga dos meus pais etc".
No dia seguinte, às 9 da manhã, a mulher me ligou...
Passada uma rápida apresentação, ela começa a me explicar o quanto seu garoto vai bem na escola, a dizer que ele não tem nenhuma nota abaixo da média, que parece gostar de Português, coisas do gênero.
Quanto mais ela fala, mais eu estranho a situação. Fico pensando que, não sendo caso de reforçar algum ponto específico da matéria ou de acompanhá-lo nas lições de casa, o serviço talvez exceda minhas expectativas; minhas capacidades, até.
E finalmente, três minutos depois de iniciada a ligação, sou eu quem começo a falar...
Tomando cuidado para não me diminuir muito, deixo claro à senhora - mulher de voz suave e calorosa, embora um pouco agitada - como sou iniciante. Digo que só tive experiência em Ensino Médio, com plantões de atendimento. (Evito dizer que dei aula particular uma vez só, nos 50 minutos que antecederam a desistência da minha aluna, minha ex-namorada, há uns quatro anos...).
Em vão: ela mal me deixa terminar as desculpas, retruca que não quer aulas de reforço. Com certeza quer me tranquilizar, sabendo-me já inexperiente. O efeito é o contrário.
Penso: "Mas, minha senhora, se não quer que seu filho tenha um acompanhameto em suas tarefas escolares, o que quer de mim, afinal?". Estou nervoso. Vou andando pela casa segurando o telefone. Chego à cozinha e, com a mão restante, faço às pressas um cafe.
A sra C. continua sua empenhada explicação.
Ao cabo de sua fala, percebo que ela quer que o menino produza regularmente, pois "o colégio já realiza muito bem o trabalho de base". Para reforçar sua preocupação, faz questão de me lembrar que escrever bem é um aspecto "fulcral" da vida de um adulto que certamente terá de elaborar memorandos, atas de reunião e até, quem sabe, artigos para publicações científicas. No que eu concordo...
Nem por isso deixo de preveni-la mais uma vez: "Veja bem, dona C.. O que eu conheço é o programa comum de Redação. Isso que a senhora está querendo, nunca fiz. Posso tentar, sim, mas fazer nunca fiz...".
Estou prestes a confessar a ela o nível lamentável de nossa preparação pedagógica na licenciatura. Penso em dizer que nunca li uma linha de Piaget, que conheço Vygotski só de nome, que passamos a graduaçao chorando as pitangas da educação brasileira.
Refreio-me; dou um gole no café.
Ela parece pressentir a escapada final e atalha: "Tudo bem, Vinicius. Eu conversei com a L. e ela me disse que você lê bastante e tal. É isso que estou procurando: alguém que goste de ler e de escrever, não um professor particular, não um professor de colégio...".
Quase engasgo com o café...
Enfim, um pouco por necessidade, um pouco por querer tentar a vida de professor, aceitei a empreitada.
Ela pareceu ficar satisfeita com a ideia. Em tom menos exaltado, me passou seus cinco telefones de recado (medida necessária, ja que não se pode atender celular nos plantões) e o resto da ligação ficamos escarafunchando as agendas. Segunda-feira era dia de judô e japonês; terça, de tênis e alemão; quinta, aulas de música... Quarta foi o dia que acertamos. O endereço é tal (o pagamento fiquei de ver).
- Mas, enfim, Dona C., como se chama o seu filho e em que série está?
- Guilherme. Está na quarta série...
Derramei o café.
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