segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mata-borrão

Certa noite, quando era menino, sonhei que era uma pedra.

Bem no dia seguinte, por um acaso, a professora deu como tarefa de classe desenhar o que a gente gostaria de ser não tivesse caído na terra em forma de gente. Era uma atividade especial, dessas que têm cara de "artes" no primário, planejada para desenvolver a imaginação e tal.

Imaginação, contudo, era justamente o que me faltava ali. Passei toda a primeira parte da aula coçando a testa, riscando daqui, dobrando as pontinhas da folha de lá... e nada. Espremi a cabeça por mais uns dez minutos e, não sei se pensei no meu sonho ou não, mas o fato é que, num dado momento, o que saiu no papel foi uma coisinha esquisitíssima, uma bolinha meio torta, em tons escuros quentes. Sim, olhando meio enviesado, de fato era uma pedra. Estava ali, para qualquer um que quisesse ver, exposta em cima da minha mesa, quase em alto relevo...

Nao sei o que aconteceu em seguida. Dentro de instantes, era eu quem estava diante da tia Julia, ou melhor, ao lado dela, que espiava meu desenho, por cima do meu ombro esquerdo. Ela olhava, olhava, olhava a pedrinha e nada de dizer alguma coisa... O tempo foi passando e ela continuava ali, empoleirada na cadeira, observando o que eu tinha feito (e minha mão tímida imperceptivelmente se deslocava, pousando entre o borrãozinho e a carteira vizinha).

Ela continuava ali, fazia tempo já. Muito tempo. Tempo suficiente pra que eu começasse a me incomodar, como se tivesse feito alguma coisa errada, roubado alguém, xingado a mãe do diretor... dançado na chuva e brincado de lutinha com o Gabriel e o Finatti... tomado chute no saco da Isabella e puxado os cabelos dela... e depois, no fim, tomado esporro da Tia Nega... a tia mais brava da escola!

E aquela pelota no meu papel? O que ela iria pensar? Que era preguiça da minha parte, certamente. Ou então, que fosse uma coisa genial, de outro mundo, feita para se admirar aos poucos, com olhar clínico.

Nada disso. Ela olhou bem o meu desenho, ainda de longe, e me perguntou:

- O que é isso, Vinicius?

- Uma pedra, pssora - eu disse baixinho, cortando a pergunta, com receio dos outros e do carimbo escarlarte, escondido no bolso da calça dela, prenda para alunos desaforados.

Ninguém ouviu, ainda bem. E ela estranhou, sim, mas não me reprendeu com um "refazer". Embora, logo em seguida, tenha pego a folha da minha mesa, posto bem rente aos olhos e, como se conversasse com o próprio desenho, dito, meio resmungando:

- Com tanta coisa que você poderia ser, você escolheu uma pedra?

E eu:

- Sim, professora, queria ser uma pedra.

Percebi que ela não gostou da resposta. Mas não estava disposto a inventar outra coisa. A tia Júlia também era insistente, e agora fazia ecoar seu vozeirão rouco por detrás da folha, como se fosse a própria pedra a me confrontar:

- Bem, Vinicius... isso pequenininho no meio da folha não me parece uma pedra. Não tem nada a ver com uma pedra. Olha só, como está cheio de cor...

Pensei um pouco e achei que aquilo fazia sentido. Pra ser sincero, a pedra é o que eu imaginara. Já o desenho, que dependia da cor para viver, não era uma pedra. O que se via, em verdade, era mesmo só as pelotinhas de cera, espremidas umas sobre as outras, lutando entre si, num redemoinhozinho informe...

Tia Julia tinha lá sua razão... e eu estava pronto a admitir isso, quando me dei conta de que ela já não estava mais lá e sim no outro canto da sala, olhando o desenho dos outros.

Nesse momento, não tive dúvidas, abri de novo a caixa de giz de cera e desenhei mais umas coisinhas, riscando o papel um pouco mais forte ainda do que tinha feito antes.

Quando ela voltou, já chegou dizendo:

_ E aí, Vinicius? Deixa eu ver o que você fez com a sua pedrinha...

Era um bonequinho, também colorido, agora com as cores separadinhas, bonitinhas. Cabeça bordô, bracinhos verdes e perninhas azuis...

... chutando a pedra.

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