sábado, 17 de outubro de 2009

Desta janela, sozinho

Esta moça que abre agora a janela em frente à minha, me cumprimenta, diz para marcarmos um jantar qualquer dia desses e, finalmente, se despede, soprando um beijo com a mão espalmada, me lembra uma outra.

Seu nome é Flavia Lima. Tem 15 anos e é aluna do 1B. Senta-se de costume na terceira carteira da fileira à esquerda do professor, colada na parede, junto às demais meninas de sua "turma" (Carol, Julia, Camila, Bruna, Aline, Ana e assim vai).

Quem é sua turma? Uns dois meninos que conheço, é bem verdade; mas, em geral, as demais meninas de sua classe.

Todas? Não. Só as que sejam preferencialmente loiras, preferencialmente tenham olhos azuis (os dois ), falem bem, sejam desenvoltas e nunca deixem de se produzir quando vão pra escola (lápis, ok; sombra, não; chapinha, imprescindível).

Além dessas, também aquelas cujos pais têm dinheiro (não precisa ser muito, mas não pode ser pouco) e aquelas cujos nomes circulam sem segredo na boca dos meninos mais bonitos e admirados.

Elas são amigas? Podem até ser, mas é bom não exagerar nessa afirmação.

É que, se a gente fosse imaginar uma história contando um dia na vida de Flavia Lima, já na primeira cena seríamos obrigados a inventar alguma rusguinha pessoal, alguma intenção decepcionada, alguma conjunção passageira de interesses que depois virou ódio mortal (namorado roubado, cola regulada, roupas emprestadas e nunca devolvidas, sucesso demais pra uma desprezo pra outra na enquete da semana etc.)

Se fosse americana, seu nome seria Tiffany. Barbie e a Xuxa são seus perfeitos decalques em plástico. Como elas, Flavia também tem casa, carro e namorado de brinquedo.

Quando ela abre a boca, sua voz esganiçada vem disfarçada num tom ondulante, com acentos longos e irritantes em sílabas anasaladas. Em tal roupagem sempre alegre vêm vestidas, é claro, enormes e estravagantes abobrinhas, que, por incrível que pareça, nunca tardam a encontrar ouvidos dispostos a cozinhá-las em fogo baixo.

Sim, ela é bela, assim, em estado de manequim. Mas talvez seja ainda mais bonita quando seu corpo se agita ao soprar do vento. E também quando ela, cansada, se senta de novo e, como se um dispositivo mecânico ligado a um detector de atenção captasse os olhares ao redor, retorce sua arrojada maquinaria de carne, pele e ossos numa postura sensual.

Passou no corredor, uma ondinha de calor sempre esquenta nossas bochechas. A rapaziada se coça, se irrita, bate a mão na testa. E tem sempre aquele que é tragado da cadeira, vai flutuando em seu encalço, pra logo em seguida, bum, estatelar-se na lousa.

E lá se vai ela, fazendo a curva rumo à mesa do professor, que detesta, mas precisa cativar, com um olho no boletim e outro na balada de sexta-feira.

Como eu disse, essa é Flavia Lima. É Flavia, nome comum de 1950 pra cá, característico de menina tipo pricesinha de classe média. É Lima, sobrenome nem muito vultoso (como Almeida Prado ou Telles), nem muito comum (como Silva).

Rodando o relógio sessenta anos para trás, ela já não se chamaria mais Flávia, nem desfilaria seu corpo leve nas alamedas da minha classe de 1o ano do colegial, falando alto, deixando um rastro de perfume, balançando os cabelos loiro escuros tingidos, exibindo as coxas e a tatuagem de estrelinha no tornozelo esquerdo.

Talvez pudesse se chamar Maria Aparecida.

Seria filha de comerciante, mas o ofício de seu pai não transpareceria nas roupas que usa, pois seu composé seria, como o de todas as demais alunas, uma daquelas típicas camisas de linho branco, o paletozinho azul marinho, a saia de pregas, a meia alta e o sapato de fivela. Toucaria seu rosto delicado um pequeno topetinho armado com grampo, único adorno que, mesmo assim, faria com que destoasse das demais meninas da classe, ainda afeita às trancinhas do secundário.

Seu namorado não seria de plástico, nem menino, nem um pretendente qualquer morando dentro de um garoto qualquer numa carteira qualquer daquela classe. Estaria no quintal de Sr. Alceu, sorvendo o último gole de sua xávena de café, enquanto pensa numa maneira sutil de demonstrar seus dotes ao pai, que já planejou a negociata há muito tempo.

Todo o setting escolar seria diferente, também.

Ela levantaria a mão antes de se levantar, pedindo permissão. Não olharia para ninguém enquanto passa no corredor. Os meninos, também, teriam os olhos pregados nos Prolegômenos elementares de Trigonometria, sucumbindo com intensidade igual à nossa a uma imaginação amorosa mais casta. As outras moças dariam risinhos abafados, ou permaneceriam sérias, remoendo a inveja em silêncio (ou então, pode ser que não percebessem a cena, distraídas com o ponto do tricô que fazem escondido por debaixo da carteira).

Quando ao invés de se dirigir à mesa do professor ela saísse direto pela porta da sala, um inspetor de classe intrometido perceberia que ela anda um pouco mais rápido do que de costume nesta bela manhã de sol. Sim, de fato ela caminha ligeiro, pois está ansiosa para chegar em casa onde Jaime, homem que conheceu na matinê do Cine Bilon, executa ponto a ponto o pedido de casamento planejado pelos dois depois da sessão de Casablanca, estreia da semana passada.

Mas se, por obra de um acaso qualquer, antes de chegar à porta principal do colégio, Maria Aparecida escorregasse no chão de mármore recém-encerado do pátio, uma tragédia aconteceria. Jaime, seu cotado e (coisa incomum na época) apaixonado pretendente, ficaria a ver navios. Ou quase. Casar-se-ia com Francisca, prima de Maria, arrebataria a venda de Sr. Alceu, alcançaria destaque na coluna local ao transformá-la em boutique. Depois faria da notoriedade pública carreira política ascendente e segura. Por fim tornaria-se adido à embaixada do país, e morreria no Cantão, amargurado de amor, ainda que com a gloria cívica assegurada.

Pouco antes disso, no entanto, Sr. Alceu e Dna. Maria pegariam mania de vestir luto no aniversário da menina e dariam jantares para os íntimos a cada um dos tristes anos completos desde o fatídico evento. Evento aos quais Jaime sempre compareceria.

Agora ele acaba de chegar de um desses jantares. Está exausto do esforço de fazer-se polido para a família a que pertence não muito bem como gostaria. Uma vez devidamente empijamado, logo depois de fazer a higiene pessoal sem prestar muita atenção, puxa uma cadeira para bem diante da janela de seu quarto (que dá de frente para o coreto principal da cidade) e se diverte imaginando ali, do outro lado da praça, mão de moça fechando uma cortina e deixando coar no ar seco do interior a frestinha de luz que faria de sua noite uma outra noite pouco menos noite do que esta.

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