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domingo, 2 de agosto de 2009
Vermelho, branco e cinza dá azulão
Qual a impressão preponderante que um adulto leva consigo a respeito de seus anos de escola?
O "Ateneu" responde bem a essa questão, se a pergunta vier de alguém interessado na educação dos jovens brasileiros do século XIX oriundos das camadas médias urbanas .
É provável, também, que o livro ainda diga muita coisa sobre os alunos que moram nos idosos de hoje em dia, nascidos nas décadas de 30, 40. O sistema de ensino era semelhante e o país também não mudara muito.
E quanto a nós, jovens adultos, na casa dos vinte? Quem poderia nos ajudar?
Raul Pompeia, certamente não. Além de estar fora de moda, faz parte de um Brasil arcaico, encalacrado entre a França e Portugal, agrícola e dependente, ignorante quanto à alta do dolar, o preço da passagem para Amsterdam e a educação à distância. Sem contar que se matou muito jovem, viveu ressentido e, por isso, não chegou a deixar da vida uma impressão muito madura ou consequente.
Talvez consultar a geração atual de ex-alunos seja mais proveitoso.
Enfim, o leitor converse com qualquer ex-aluno ou profissional da área do ensino privado. Creio que, se o fizer, verá emaranhar-se diante de si um confuso novelo feito de "descompromisso generalizado", "indisciplina", "automatismo" e "violência".
São palavras conhecidas. Imponentes, de certa forma. Marcam, via contundência e ar especializado, ao mesmo tempo, a distância e o vínculo com o ensino em vigor. Ouvimos falar nelas, com impaciência, todas as vezes que ligamos o rádio ou lemos revistas peritas. Às vezes saem da boca dos próprios pais dos alunos em curso.
Bastam para dar conta do que vivemos na juventude?
Seria bom se pudéssemos acreditar que sim. O que seria o caso se não houvesse sempre, com a universalização do acesso ao ensino, motivos privatistas para se desqualificar esse ou aquele método, essa ou aquela escola.
Com isso, se você, como eu, caro leitor, tem interesse em saber o quanto sobrevive de sua vida escolar em si, creio que poderá contar apenas com a própria memória e os conhecimentos acumulados na maturidade.
Nao é tarefa muito fácil. Mas vamos a ela.
No meu caso, concluí os estudos básicos num pequeno colégio de São Caetano do Sul, hoje extinto, chamado Quarup. Trata-se (travatava-se) de um colégio pequeno numa cidade pequena e que, desde o final da década de 70, quando foi fundado, acenou - pelo menos no folheto de adesão -, com uma ideia de ensino baseada na pessoa, em seu modo de vida, suas crenças, inclinações e histórias. Propunha-se a libertar-nos da estreiteza, da mentalidade tacanha do interior, e nos preparar para a "vida nova" (o leitor logo saberá a que me refiro) exercitando a reflexão e a autonomia.
No entanto, pensar e dizer o que se queria, ali, era o que menos se fazia. Não por censura, não por coação, é claro. Por abandono carinhoso, por descaso educacional circundado de zelos e ternuras.
Noutras palavras: o que muito se fazia ali, era, na verdade, justamente o contrário de educar; era envolver alunos, professores e funcionários na imagem do que seria uma grande família. Mas não uma família qualquer, e sim, uma família afinada com a vida nova surgindo para além da Avenida dos Estados, preparada em vista do mercado de trabalho e sedenta pelas novidades tecnológicas que chegavam a galope.
Com o que, aliás, desde o começo, se angariava as graças das verdadeiras famílias - provincianas e arrivistas - do ABC.
Daí porque ninguém saía de lá mais sábio, temperado, crítico ou informado. Saía bacana entre os pares, com traquejo social frente a estranhos. Cheio de ilusões, principalmente, e com automática prontidão para seguir a vida e ganhar o seu. Nenhum incômodo salvo os que tocavam à ponta do próprio nariz...
Parece exagero, o leitor dirá. Não é. Mesmo que, lamentavelmente (e por razões que já expliquei acima), conte apenas com a memória e algum conhecimento para afiançar o que estou falando.
Conhecimento, nem tanto. Meia duzia de coisas que sei sobre o que aconteceu com o país e minha pequenina cidade nesse meio tempo.
Pois bem... vamos lá...
Nada... embatuquei...
Fico tentado a falar da ditadura aqui. Talvez porque ouvisse meus professores falarem nela, a origem de todo o mal a ser exorcisado por nós, gente não-conspurcada....
Ouço ecos longíquos de palavras como "liberdade", "possibilidade de expressão", "criatividade", "invenção de si mesmo", "atitude política", mas tudo isso ligado a quê? Dar coices nos outros e garantir o de-comer...
Que mixórdia fabulosa! Que riqueza de contradições! Por onde se desfiar tudo isso? Até mesmo as palavras-diagnóstico da educação-hoje-em-dia (aquelas com que começamos o texto) me parecem menos enoveladas.
Enfim, leitor... o conhecimento parece ainda ser de menos para dar conta dessa confusão. Fica o sentimento de logro, de deformação, o vazio mental, os roxos na pele, o tédio e, frustrada, a vontade de encontrar na memória os meninos que fomos um dia...
Ou quase...
Tudo o que sei é que nesse ambiente em que se preparavam os novos alunos para o recém-saturado mercado de trabalho brasileiro, paradoxalmente, se respirava a tal fraseologia da liberdade.
Que gozado! No fundo é como se toda a legitimidade moral dos meus professores viesse de terem vivido os ares emancipatórios dos 50, o golpe de 60, a marmorra dos 70, as promessas dos 80 e a ressaca dos 90. Parecíamos, diante deles, pequenos bárbaros, entretidos com videogames, pornô e metal. E eles, muito pelo contrário, tinham lutado contra o dragão. Tinham cruzado a Maria Antônia sob uma chuva de pedras, participado de passeatas, vivido agruras impensáveis. Eram produto de uma riqueza inestimável de experiências...
...que fazia, no entanto, com que não tivessem a mínima ideia do que medrava em nossos espíritos movidos a megabytes.
Imagino que nos grandes centros urbanos, descontada a ignorância da província, tenha-se vivido coisa parecida. Será que o pessoal de polainas, vidrado em Topo Giggio*, não terá alguma coisa a me dizer aqui? Não ouviram a mesma coisa de seus professores? Não acham estranho, hoje em dia, que a aura combativa que eles contruiram para servir-nos casasse tão bem com as lições de cinismo que eles nos deram? Conheceram hippies publicitários, também? Gente da revolta armada que votou no Collor? Foram também erigidos a pioneiros de um Brasil helicoidal, onde se viveria como em perpétuo estado de modernidade, o que estranhamente era proposto como ideal por gente cujo "senso crítico" nascera na "contestação ao sistema"?
Vou assumir que sim e fazer força pra voltar ao assunto (afinal nas minhas aulas de dissertação, só aprendi que ela tinha começo, meio e fim, não a refletir em linha reta...)
Por incrível que pareça foi só nessa época, o começo dos 90, que aquilo que há muito já acontecia nos centros urbanos chegou à província mais próxima de São Paulo: São Caetano completava sua intérfase. Surgiam as primeiras lojas de conveniência, que hoje pululam; os bancos, os clubes, as roupas de grife, as casas noturnas. Isto é, a cerejinha do ABC finalmente deixava de ser uma cidade industrial para se transformar em pólo de serviços (mal começada a "dinastia Tortorello"*, o horizonte já brilhava, azulão*). Por outro lado, sumiam as indústrias e montadoras. A Brasinca já era o grande murão azul que pulávamos para jogar bola. A ZF* desmontava-se, uma das últimas (e o seu Mário, meu ex-sogro, perdia o emprego). A Voucs* também e, com ela, os sindicatos, as carteiras de trabalho, a aura combativa. Resumindo: sumira a cidade que colhera os frutos do "milagre econômico", implantado nas décadas de 60/70; sumira uma pequena "ilha de riqueza", como se dizia na época.
Onde fora parar?
Ora, em lugar nenhum. Ficara bem ali, dormindo dentro da italianada antes proletários da Matarazzo, agora médios comerciantes; antes explorados pela colônia, agora exploradores impessoais.
Como aprenderam bem com o silêncio de trinta anos! Enquanto ouviam-se gritos e tiros em São Bernardo, trabalharam calados como formigas, juntaram dinheiro, recauchutaram tudo... em silêncio, sempre em silêncio... Sanaram as contas públicas, investiram pesado em saúde e urbanismo, quietinhos, na moita... enfim... travaram o combate dos "sábios"....
Uma década depois, combativos eramos nós, também... só que à nova moda.
Não bastava o mingau de resignação oportunista que os professores nos serviam todos os dias (às vezes só por ater-se ao programa e calar sobre a vida) para nutrir campeões. Claro que não. Além dele foi necessária também a sociabilidade espontânea no colégio, que se encarregava do mais fundamental da formação. Essa mistura é que era a nossa "lição de casa".
Os folhetos de adesão que chegavam aos borbotões nas nossas casas diziam "emancipe-se" e isso funcionava, lá dentro, entre os quatro muros da escola, como "prove-se o melhor, o mais forte, o mais esperto, o mais rico, encontre seus pares e achicalhe os demais". Dura lição, aprendida como que por instinto no cotidiano "um come o outro", na convivência interpessoal movida a rusgas, hostilidade, panelinhas e socos.
Às vezes eu me pergunto se tamanha violência já não era uma forma de nos preparar para essa vida cachorro-solto que a gente leva hoje em dia com emprego incerto e sob a necessidade de ser "descolado", conseguir as coisas na base das filiações pessoais, com conversas, pancadas certeiras e silenciosas, extorções simpáticas.
Que diabo de vida besta! Quantas palavras! Quantas coisas passando ao alcance das mãos... que hoje como há pouco se esbofeteiam para pegá-las.
E a professora nos lia Drummond, recebido com amor e basbaque por nós, gente da cidadezinha qualquer (ou quase), bichos em devir (sem a dignidade silenciosa dos bois).
Bom, deixa eu parar por aqui. A essa altura o leitor já deve ter percebido que demos com os burros n'água tentando descobrir de onde vem o quadro desolador da nossa educação. Paciência. Às vezes um desabafozinho não faz mal a ninguém. E, em todo caso, é melhor fazer isso acompanhado do que sozinho. E melhor ainda daqui, de longe, de onde não se apanha por não se reagir com desenvoltura.
Para falar no jargão da vez, fica aqui, então, "um salve"* à juventude formada em escolas como o Quarup! Viva a pura agressão, a falta de perspectiva, o tesão ao segundo, a vontade de se largar nas coisas e virar manequim! Viva a gente de plástico... perfumada, coradinha, bem nutrida, é claro...viva a gente do extinto e nem sempre lembrado Colégio Drummond Quarup...
... que, afinal de contas, não era assim tão diferente do Ateneu*.
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Glossário
* Ateneu - livro de Raul Pompéia. Também o nome de um colégio menos famoso que o do livro, situado em São Caetano do Sul, de ensino reconhecidamente fraco, hoje apostilado pelo sistema Anglo, mas antes sem fumaças de modernidade.
* Azulão - time de futebol ativamente promovido pela municipalidade e vendido como cartão de visitas da cidade desde o final da década de 90 até hoje.
* Dinastia Tortorello - refere-se a Marquinho Tortorello, Auricchio e, ao patriarca, Luis Olinto Tortorello, prefeito da cidade por tantos anos que não me lembro mais quantos, e homem cuja gestão é responsável pelo processo de transformação referido no texto.
Também a ele se pode atribuir a construção de zilhões de praças, numerosos recapeamentos da Av. Goiás, trocas constantes do quadro de professores no colégio Alcina Dantas Feijão e o estouro do AD São Caetano. É juiz e, além disso - dizem -, dono de Matão, cidade do interior de São Paulo.
Já a Auricchio pode-se atribuir o piscinão da Dellamare, os faróis com contagem regressiva da Av. Goiás, as palmeiras da Av. Kennedy (sobre cujo faturamento há controvérsias) e a perpetuação dos genes políticos de Tortorello.
Marquinho, eterno candidato a prefeito, nunca eleito, filho pródigo de Luis Olinto, foi vereador em São Paulo, será sempre protagonista de histórias maldosas que todos contam e estrelou a verdadeira traíção shakespeareana que foi seu pai preteri-lo em favor de Auricchio na preleção para o pleito em que este se elegeu.
* 'Rei' - Roberto Carlos. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, ES, foi o grande cantor popular da década de 60 e em diante. Encarnou, quando surgiu, o que havia de mais superficial no espírito do tempo: a rebeldia, as calças jeans, as gírias, o carro esporte, o rock n' roll, a tola canção de amor juvenil metida a descolada. Encarna hoje em dia o que há de mais superficial no espírito do tempo: é evangélico, só anda de branco ou azul para fazer da crendice modelo de integridade pessoal, preside os especiais de ano novo na Globo e vive do estrondoso e duradouro sucesso das canções de amor aguado e de-meia-idade que compôs de 70 pra cá (quando, é claro, envelheceu e parou de compor canções de amor desabusadas e tolas ainda que jovens).
* São Caetano do Sul -o C da sigla ABC paulista. Cidade de imigrantes italianos fundada no começo do século XX, que só conservou de italiano o sotaque e a festa em que se vende fogazza e se ouve tarantela (com um ou dos éles?). Espécie de dormitório para parte dos trabalhores paulistas. Diz que não tem favelas e risca seus limites bem rente à maior da América Latina, além de empurrar para Sto André a Palmares, uma menor. Noticiada, consequentemente, como irmã gêmea e mais quente de Oslo segundo o IDH, poderia ser caracterizada como uma espécie de Moema fora de SP, não fosse um pouco mais vulgar, pobre e ignorante. Sua maior rua é, e continua sendo, a Av. Goiás, margeada pela General Motors, como o Guarujá é pelo mar. O centro localiza-se logo ao sul, depois do qual encontra-se a Fundação e a Vila Prosperidade, bairros operários, não por acaso os mais vitimados pelas enchentes do Tamanduateí. Abriga uma cena de rock considerável, apesar de ser sede - dependendo da gestão, com má-vontade - de uma boa e até onde sei acessível escola técnica de música e teatro, a Fundação das Artes. Não tem boas escolas de ensino formal, bibliotecas ou cinemas decentes, corre atrás de Sto André no empolgante circuito de cultura atual, mas é prolífica em luminosos e programas públicos de saúde e esportes.
* Toppo Giggio - boneco sinistro, em tamanho real, apresentor de um programa infantil bem-humorado na década de 80 veiculado pela hoje extinta (amem) Rede Record. Também andava de skate e brincava de pogoball no ar.
* 'um salve' - expressão com que rappers e jovens de periferia saúdam - e assim legitimam-se junto - à comunidade em que vivem, viveram ou que frequentam.
* Voucs - tratamento familar, corruptela praticada pelos habitantes do ABC para designar a Volkswagen
* ZF - montadora de caminhões. A última indústria automobilística a se retirar da cidade, em meados dos anos 90.
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