terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um professor, não um professor de colégio...

Desde terça passada, tenho meu primeiro aluno de redação. Isso faz de mim professor de Redação, ou pelo menos deveria fazer.

A mãe chegou até meu nome por meio de uma ex-colega, atualmente afogada em prazos, que me passou o serviço. "É tranquilo, Vini. O menino é filho de uma amiga dos meus pais etc".

No dia seguinte, às 9 da manhã, a mulher me ligou...

Passada uma rápida apresentação, ela começa a me explicar o quanto seu garoto vai bem na escola, a dizer que ele não tem nenhuma nota abaixo da média, que parece gostar de Português, coisas do gênero.

Quanto mais ela fala, mais eu estranho a situação. Fico pensando que, não sendo caso de reforçar algum ponto específico da matéria ou de acompanhá-lo nas lições de casa, o serviço talvez exceda minhas expectativas; minhas capacidades, até.

E finalmente, três minutos depois de iniciada a ligação, sou eu quem começo a falar...

Tomando cuidado para não me diminuir muito, deixo claro à senhora - mulher de voz suave e calorosa, embora um pouco agitada - como sou iniciante. Digo que só tive experiência em Ensino Médio, com plantões de atendimento. (Evito dizer que dei aula particular uma vez só, nos 50 minutos que antecederam a desistência da minha aluna, minha ex-namorada, há uns quatro anos...).

Em vão: ela mal me deixa terminar as desculpas, retruca que não quer aulas de reforço. Com certeza quer me tranquilizar, sabendo-me já inexperiente. O efeito é o contrário.

Penso: "Mas, minha senhora, se não quer que seu filho tenha um acompanhameto em suas tarefas escolares, o que quer de mim, afinal?". Estou nervoso. Vou andando pela casa segurando o telefone. Chego à cozinha e, com a mão restante, faço às pressas um cafe.

A sra C. continua sua empenhada explicação.

Ao cabo de sua fala, percebo que ela quer que o menino produza regularmente, pois "o colégio já realiza muito bem o trabalho de base". Para reforçar sua preocupação, faz questão de me lembrar que escrever bem é um aspecto "fulcral" da vida de um adulto que certamente terá de elaborar memorandos, atas de reunião e até, quem sabe, artigos para publicações científicas. No que eu concordo...

Nem por isso deixo de preveni-la mais uma vez: "Veja bem, dona C.. O que eu conheço é o programa comum de Redação. Isso que a senhora está querendo, nunca fiz. Posso tentar, sim, mas fazer nunca fiz...".

Estou prestes a confessar a ela o nível lamentável de nossa preparação pedagógica na licenciatura. Penso em dizer que nunca li uma linha de Piaget, que conheço Vygotski só de nome, que passamos a graduaçao chorando as pitangas da educação brasileira.

Refreio-me; dou um gole no café.

Ela parece pressentir a escapada final e atalha: "Tudo bem, Vinicius. Eu conversei com a L. e ela me disse que você lê bastante e tal. É isso que estou procurando: alguém que goste de ler e de escrever, não um professor particular, não um professor de colégio...".

Quase engasgo com o café...

Enfim, um pouco por necessidade, um pouco por querer tentar a vida de professor, aceitei a empreitada.

Ela pareceu ficar satisfeita com a ideia. Em tom menos exaltado, me passou seus cinco telefones de recado (medida necessária, ja que não se pode atender celular nos plantões) e o resto da ligação ficamos escarafunchando as agendas. Segunda-feira era dia de judô e japonês; terça, de tênis e alemão; quinta, aulas de música... Quarta foi o dia que acertamos. O endereço é tal (o pagamento fiquei de ver).

- Mas, enfim, Dona C., como se chama o seu filho e em que série está?

- Guilherme. Está na quarta série...

Derramei o café.

domingo, 13 de setembro de 2009

Il libero vingatore

Frei Caneca sentido Paulista. Pacotão, por volta dos 30, caminha e bambeia na calçada. Bata roxa sobrando, calça jeans, sandália anabela. Maquiagem ridícula para um dia de sol, chapinha, óculos escuros.

Fala alto, enquanto a mão de pãozinho esmaga um LG b055-al contra a orelha.

Mas não, Luis! Nesta hora você não pode ter coração mole. O papai tem, a mamãe tem, a gente não pode ter... Não interessa, não interessa... se não aceitarem, a gente entra com uma ação de despejo... É muito simples. A lei tá aí pra isso...

Do meio campo, correndo, lá vem Massaro, camisa nove. Passa por um, dois, dá nó na defesa e faz vibrar a torcida napolitana. Chuta cruzado...

Fim de jogo. Fiorentina eliminada do campeonato.

Duas festas

Chegar em festa dizendo "vamos ver se eu me animo" é um problema. Na maioria das vezes a gente não se anima e fica ping-pong, ping-pong, pra lá e pra cá, até sair pior do que entrou.

Na verdade, nem tudo é desgraça desde o começo. Há um momento caloroso.

É claro, você acabou de chegar. Cada um que aparece muda a paisagem, o que é sempre muito agradável pra quem já está na festa e não quer que o caldo empelote. Um corpo esbarra nos demais; surge um ventinho que balança a folhagem. É o que basta: te abraçam, te beijam, mostram-se interessados. Você sorri, fica alegre.

Alegre, não. Mais do que isso, pois até aquele estouro de mulher ruiva, lindíssima, com gestos de bailarina, que você não vê há uns três anos, te olha em cheio, cumprimenta com vontade, conversa, parece feliz em te ver! Você até começa a pensar: "Putz, não é que valeu a pena?".

Aos poucos, no entanto, satanás festeiro começa a tirar as asinhas de fora...

Um dos seus comentários sarcásticos não emplaca. Daí a pouco são as pernas que não funcionam pra dançar. E logo você começa a perceber que não está fazendo mais nada além de caminhar e beber.

A alegria de há pouco se foi. Ninguém mais interage com você e você é dominado pela necessidade de se inibir na conversa (coisa de que, paradoxalmente, você quer fugir falando). Sua boca se mexe, em silêncio: abre, encosta na lata, fecha. E depois de fazer isso umas trezentas vezes, fica rançosa, como os braços, dormentes desde o começo.

Chegou agora e já se sentou? Vão reparar. Você levanta, caminha um pouco e, por um momento, podia jurar que tem sete pernas. Está torto, feio. Corre para o banheiro.

"Hum, não sei não". O cabelo não está bom, espevitou. Todo o resto também não ajuda, afinal você deu pra escolher a pior roupa. Além disso, quem mandou jurar regime e, logo depois, refogar o arroz com bacon? Agora está aí o resultado, o espelho não mente. Ar. Qualquer coisa é melhor do que isso...

Você corre para fora. É bonito o quintal decorado, com a grama meio crescidinha, as coisas fora do lugar para as pessoas se sentirem em casa.

Sim, ali se conversa bem. E se você reparar com atenção, até encontrará, em meio à fauna, outros marcianos como você, misturados aos maconheiros (muito embora não fumem). Eles puxam conversa, te deixam à vontade; mas só até você se interessar um pouquinho. E, finalmente, quando chega a hora mais esperada por eles, ou seja, a de você sustentar o papo... nada... sua boca é uma tumba, de novo.

Também, pudera: está bem mais legal só ver ela dançando ali no fundo da sala, no escuro. Prendeu o cabelo encaracolado com um coque e deve ser a única pessoa no recinto que consegue dançar com os braços ligeiramente levantados e ainda parecer elegante, o corpo leve balançando pra lá e pra cá, prá lá e pra cá, pra lá...

Alguém passa avisando que tem uma mancha na sua calça; ou melhor, gritando a plenos pulmões "Nossa! O que é isso aqui?". Piadinha de cinco minutos, nada de mais. Pelo menos cortou o silêncio embaraçoso. Você dá uma tiradinha sem graça e sai. Encaminha-se, casualmente, à sala de estar. Ela já não está mais lá ( talvez por isso, desacorçoado, você olhará mais catorze vezes para a mancha, impedido que está de chacoalhar o esqueleto ao som de Lulu Santos)

Pior é quando as pessoas são interessantes. As opiniões mais ousadas parecem irremediavelmente superficiais; as conversas mais espontâneas, marcadas; os gestos, ensaiados; os sorrisos, falsos. Tudo te cansa....

Logo em seguida, lá está você, no canto, fazendo esforço para parecer à vontade, mesmo sentindo que está sentado em um formigueiro. Alguns passam, admiram a decoração nacional-popular; capaz que sintam a sua presença, perfilada entre os cangaceiros e o boi-bumbá.

Uma moça atraente (não exatamente a que você queria) chega na roda, para e fica conversando ali de frente. Vira e mexe te joga um olharzinho. Pode estar pressionando o malucão que obviamente está investindo. Pode ser que não, olhou muitas vezes, esperou resposta. "Que legal!"

Legal? Frio, pânico, nada pra dizer....

Também, não poderia ser diferente. Principalmente desde que você decidiu que a melhor maneira de se mostrar disponível é se disfarçando de samambaia. Você desvia o olhar; ela se cansa do seu ridículo joguinho de esconder. Melhor assim...

Algum amigo passa e te cutuca. "E aí, meu? De boas? Tá meio caidão...". "É... semana difícil, muito trampo...". "Pode crer". Dá um gole na cerveja. Clac, tira o anelzinho da tampa. Tosse. Faz pose com a mão na cintura. Por fim, avista alguém de longe. "Vou lá, falar com...". "Sussa, tranquilo, beleza...".

Nesse tempo todo, é claro, você acendeu um cigarro, dois, três. A esta altura, seu maço já era. E aí, pela primeira vez, surge a ideia na sua cabeça: sair pra comprar outro maço e, quem sabe, se mandar dali. Você para e pensa direito. Está sem sono. Não acha bom ir pra casa, assim, ouriçado, com a cabeça em tumulto. Pra completar, adivinha quem está ali naquela outra roda? Custou tanto pra não pensar mais nela... e ela nem te conhecia... imagina agora que conhece...

E você se vê novamente na situação de um adolecente bobo, trombando em tudo, se esforçando para ser o homem que você ainda não é (será um dia?), tudo para se fazer perceber por uma moça que nem te conhece. Fica sonhando, querendo se dissolver naquela cabeleira vermelha, apertar aquela cintura delicada, sentir aquela pele macia no peito, ali, tão perto, tão.perto, tão...

Onde? Sumiu...

"Merda! Melhor ir embora mesmo...". Mas você não veio sozinho. Muito pelo contrário, aliás. Tem umas duas pessoas que dependem da sua carona.

Você checa com os amigos em comum. Estão todos acompanhados, ou de carro cheio. Certo, chamar a rapaziada, então. Você vai e atrapalha a alegria das pessoas, dizendo "Pô, acho que já vou nessa". Daí, de duas uma: se querem ir embora, aceitam de bom grado (mesmo que, para os outros, não deixem de pôr a culpa em você, que já estava mortão a olhos vistos); se não querem ir, enrolam mais meia hora no mínimo.

Resultado: de qualquer maneira você continua irritado e empestando o ar com sua má vontade...

Finalmente chega a hora. Os companheiros estão de posse de seus pertences e acenam, mostrando-se dispostos a partir. Você pula os conhecidos, cumprimentando só os amigos. "Desculpa, gente, tô cansadão... acho que vou pra casa.". " Ah, mas já? E o pior é que você vai levar fulano e fulano com você". Você pensa: "obrigado, agora durmo mais feliz sabendo que vou fazer falta" e mal consegue suportar tanta autopiedade, pois, no fundo, fosse outro o seu humor, você diria a mesma coisa, espantando urubus.

Ligeiramente aliviado de sair dali, você dirige, mecânico. As mãos se esparramam no volante. Em cada músculo tenso de seu corpo, você se sente como se tivesse sido atropelado por uma manada de elefantes, muito embora não tenha movido uma palha na festa.

Seus caronas estão cansados, não conversam. Ainda bem. Você os deixa em casa com um muxoxo amistoso e segue para a sua. Não interessa se o caminho será curto ou longo, pouco antes de você chegar no seu quarteirão, você será atravessado por imagens dos poucos bons momentos da festa. (A que mais vai doer: o close daquele primeiro olhar da ruiva, agora fundido à provavel cena dela partindo com o cara cujo nome ela já trazia tatuado na nuca).

Você vê os postes passando de revés e, por um minuto, pensa que talvez fosse melhor acabar com tanto desassossego. Logo espanta essa ideia, ponderando que abandonar a festa já foi covardia suficiente.

Vai pra casa, dorme e acorda pior do que já estava.

O que fazer?

Bem, tenho até um pouco de vergonha de dizer isso, mas, vá lá, não é nada muito indecente...

Às vezes, se eu fecho os olhos - bem apertados mesmo - e me encolho no sofá no meio das almofadas, minha cabeça faz giros sozinha e eu começo a sentir "coisas". Não dá pra dizer que a gente está sonhando, porque assim não se chega a dormir (talvez, por isso, é quase como se fosse real). Hoje, fiz isso.

E senti aqueles cabelos vermelhos, enormes, maiores do que eu, maiores do que ela, maiores do que a festa; um milhão de cabelos vermelhos e aqueles olhos de mil cores fazendo festa em mim...

domingo, 2 de agosto de 2009

Vermelho, branco e cinza dá azulão


Qual a impressão preponderante que um adulto leva consigo a respeito de seus anos de escola?

O "Ateneu" responde bem a essa questão, se a pergunta vier de alguém interessado na educação dos jovens brasileiros do século XIX oriundos das camadas médias urbanas .

É provável, também, que o livro ainda diga muita coisa sobre os alunos que moram nos idosos de hoje em dia, nascidos nas décadas de 30, 40. O sistema de ensino era semelhante e o país também não mudara muito.

E quanto a nós, jovens adultos, na casa dos vinte? Quem poderia nos ajudar?

Raul Pompeia, certamente não. Além de estar fora de moda, faz parte de um Brasil arcaico, encalacrado entre a França e Portugal, agrícola e dependente, ignorante quanto à alta do dolar, o preço da passagem para Amsterdam e a educação à distância. Sem contar que se matou muito jovem, viveu ressentido e, por isso, não chegou a deixar da vida uma impressão muito madura ou consequente.

Talvez consultar a geração atual de ex-alunos seja mais proveitoso.

Enfim, o leitor converse com qualquer ex-aluno ou profissional da área do ensino privado. Creio que, se o fizer, verá emaranhar-se diante de si um confuso novelo feito de "descompromisso generalizado", "indisciplina", "automatismo" e "violência".

São palavras conhecidas. Imponentes, de certa forma. Marcam, via contundência e ar especializado, ao mesmo tempo, a distância e o vínculo com o ensino em vigor. Ouvimos falar nelas, com impaciência, todas as vezes que ligamos o rádio ou lemos revistas peritas. Às vezes saem da boca dos próprios pais dos alunos em curso.

Bastam para dar conta do que vivemos na juventude?

Seria bom se pudéssemos acreditar que sim. O que seria o caso se não houvesse sempre, com a universalização do acesso ao ensino, motivos privatistas para se desqualificar esse ou aquele método, essa ou aquela escola.

Com isso, se você, como eu, caro leitor, tem interesse em saber o quanto sobrevive de sua vida escolar em si, creio que poderá contar apenas com a própria memória e os conhecimentos acumulados na maturidade.

Nao é tarefa muito fácil. Mas vamos a ela.

No meu caso, concluí os estudos básicos num pequeno colégio de São Caetano do Sul, hoje extinto, chamado Quarup. Trata-se (travatava-se) de um colégio pequeno numa cidade pequena e que, desde o final da década de 70, quando foi fundado, acenou - pelo menos no folheto de adesão -, com uma ideia de ensino baseada na pessoa, em seu modo de vida, suas crenças, inclinações e histórias. Propunha-se a libertar-nos da estreiteza, da mentalidade tacanha do interior, e nos preparar para a "vida nova" (o leitor logo saberá a que me refiro) exercitando a reflexão e a autonomia.

No entanto, pensar e dizer o que se queria, ali, era o que menos se fazia. Não por censura, não por coação, é claro. Por abandono carinhoso, por descaso educacional circundado de zelos e ternuras.

Noutras palavras: o que muito se fazia ali, era, na verdade, justamente o contrário de educar; era envolver alunos, professores e funcionários na imagem do que seria uma grande família. Mas não uma família qualquer, e sim, uma família afinada com a vida nova surgindo para além da Avenida dos Estados, preparada em vista do mercado de trabalho e sedenta pelas novidades tecnológicas que chegavam a galope.

Com o que, aliás, desde o começo, se angariava as graças das verdadeiras famílias - provincianas e arrivistas - do ABC.

Daí porque ninguém saía de lá mais sábio, temperado, crítico ou informado. Saía bacana entre os pares, com traquejo social frente a estranhos. Cheio de ilusões, principalmente, e com automática prontidão para seguir a vida e ganhar o seu. Nenhum incômodo salvo os que tocavam à ponta do próprio nariz...

Parece exagero, o leitor dirá. Não é. Mesmo que, lamentavelmente (e por razões que já expliquei acima), conte apenas com a memória e algum conhecimento para afiançar o que estou falando.

Conhecimento, nem tanto. Meia duzia de coisas que sei sobre o que aconteceu com o país e minha pequenina cidade nesse meio tempo.

Pois bem... vamos lá...

Nada... embatuquei...

Fico tentado a falar da ditadura aqui. Talvez porque ouvisse meus professores falarem nela, a origem de todo o mal a ser exorcisado por nós, gente não-conspurcada....

Ouço ecos longíquos de palavras como "liberdade", "possibilidade de expressão", "criatividade", "invenção de si mesmo", "atitude política", mas tudo isso ligado a quê? Dar coices nos outros e garantir o de-comer...

Que mixórdia fabulosa! Que riqueza de contradições! Por onde se desfiar tudo isso? Até mesmo as palavras-diagnóstico da educação-hoje-em-dia (aquelas com que começamos o texto) me parecem menos enoveladas.

Enfim, leitor... o conhecimento parece ainda ser de menos para dar conta dessa confusão. Fica o sentimento de logro, de deformação, o vazio mental, os roxos na pele, o tédio e, frustrada, a vontade de encontrar na memória os meninos que fomos um dia...

Ou quase...

Tudo o que sei é que nesse ambiente em que se preparavam os novos alunos para o recém-saturado mercado de trabalho brasileiro, paradoxalmente, se respirava a tal fraseologia da liberdade.

Que gozado! No fundo é como se toda a legitimidade moral dos meus professores viesse de terem vivido os ares emancipatórios dos 50, o golpe de 60, a marmorra dos 70, as promessas dos 80 e a ressaca dos 90. Parecíamos, diante deles, pequenos bárbaros, entretidos com videogames, pornô e metal. E eles, muito pelo contrário, tinham lutado contra o dragão. Tinham cruzado a Maria Antônia sob uma chuva de pedras, participado de passeatas, vivido agruras impensáveis. Eram produto de uma riqueza inestimável de experiências...

...que fazia, no entanto, com que não tivessem a mínima ideia do que medrava em nossos espíritos movidos a megabytes.

Imagino que nos grandes centros urbanos, descontada a ignorância da província, tenha-se vivido coisa parecida. Será que o pessoal de polainas, vidrado em Topo Giggio*, não terá alguma coisa a me dizer aqui? Não ouviram a mesma coisa de seus professores? Não acham estranho, hoje em dia, que a aura combativa que eles contruiram para servir-nos casasse tão bem com as lições de cinismo que eles nos deram? Conheceram hippies publicitários, também? Gente da revolta armada que votou no Collor? Foram também erigidos a pioneiros de um Brasil helicoidal, onde se viveria como em perpétuo estado de modernidade, o que estranhamente era proposto como ideal por gente cujo "senso crítico" nascera na "contestação ao sistema"?

Vou assumir que sim e fazer força pra voltar ao assunto (afinal nas minhas aulas de dissertação, só aprendi que ela tinha começo, meio e fim, não a refletir em linha reta...)

Por incrível que pareça foi só nessa época, o começo dos 90, que aquilo que há muito já acontecia nos centros urbanos chegou à província mais próxima de São Paulo: São Caetano completava sua intérfase. Surgiam as primeiras lojas de conveniência, que hoje pululam; os bancos, os clubes, as roupas de grife, as casas noturnas. Isto é, a cerejinha do ABC finalmente deixava de ser uma cidade industrial para se transformar em pólo de serviços (mal começada a "dinastia Tortorello"*, o horizonte já brilhava, azulão*). Por outro lado, sumiam as indústrias e montadoras. A Brasinca já era o grande murão azul que pulávamos para jogar bola. A ZF* desmontava-se, uma das últimas (e o seu Mário, meu ex-sogro, perdia o emprego). A Voucs* também e, com ela, os sindicatos, as carteiras de trabalho, a aura combativa. Resumindo: sumira a cidade que colhera os frutos do "milagre econômico", implantado nas décadas de 60/70; sumira uma pequena "ilha de riqueza", como se dizia na época.

Onde fora parar?

Ora, em lugar nenhum. Ficara bem ali, dormindo dentro da italianada antes proletários da Matarazzo, agora médios comerciantes; antes explorados pela colônia, agora exploradores impessoais.

Como aprenderam bem com o silêncio de trinta anos! Enquanto ouviam-se gritos e tiros em São Bernardo, trabalharam calados como formigas, juntaram dinheiro, recauchutaram tudo... em silêncio, sempre em silêncio... Sanaram as contas públicas, investiram pesado em saúde e urbanismo, quietinhos, na moita... enfim... travaram o combate dos "sábios"....

Uma década depois, combativos eramos nós, também... só que à nova moda.

Não bastava o mingau de resignação oportunista que os professores nos serviam todos os dias (às vezes só por ater-se ao programa e calar sobre a vida) para nutrir campeões. Claro que não. Além dele foi necessária também a sociabilidade espontânea no colégio, que se encarregava do mais fundamental da formação. Essa mistura é que era a nossa "lição de casa".

Os folhetos de adesão que chegavam aos borbotões nas nossas casas diziam "emancipe-se" e isso funcionava, lá dentro, entre os quatro muros da escola, como "prove-se o melhor, o mais forte, o mais esperto, o mais rico, encontre seus pares e achicalhe os demais". Dura lição, aprendida como que por instinto no cotidiano "um come o outro", na convivência interpessoal movida a rusgas, hostilidade, panelinhas e socos.

Às vezes eu me pergunto se tamanha violência já não era uma forma de nos preparar para essa vida cachorro-solto que a gente leva hoje em dia com emprego incerto e sob a necessidade de ser "descolado", conseguir as coisas na base das filiações pessoais, com conversas, pancadas certeiras e silenciosas, extorções simpáticas.

Que diabo de vida besta! Quantas palavras! Quantas coisas passando ao alcance das mãos... que hoje como há pouco se esbofeteiam para pegá-las.

E a professora nos lia Drummond, recebido com amor e basbaque por nós, gente da cidadezinha qualquer (ou quase), bichos em devir (sem a dignidade silenciosa dos bois).

Bom, deixa eu parar por aqui. A essa altura o leitor já deve ter percebido que demos com os burros n'água tentando descobrir de onde vem o quadro desolador da nossa educação. Paciência. Às vezes um desabafozinho não faz mal a ninguém. E, em todo caso, é melhor fazer isso acompanhado do que sozinho. E melhor ainda daqui, de longe, de onde não se apanha por não se reagir com desenvoltura.

Para falar no jargão da vez, fica aqui, então, "um salve"* à juventude formada em escolas como o Quarup! Viva a pura agressão, a falta de perspectiva, o tesão ao segundo, a vontade de se largar nas coisas e virar manequim! Viva a gente de plástico... perfumada, coradinha, bem nutrida, é claro...viva a gente do extinto e nem sempre lembrado Colégio Drummond Quarup...

... que, afinal de contas, não era assim tão diferente do Ateneu*.

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Glossário

* Ateneu - livro de Raul Pompéia. Também o nome de um colégio menos famoso que o do livro, situado em São Caetano do Sul, de ensino reconhecidamente fraco, hoje apostilado pelo sistema Anglo, mas antes sem fumaças de modernidade.

* Azulão - time de futebol ativamente promovido pela municipalidade e vendido como cartão de visitas da cidade desde o final da década de 90 até hoje.

* Dinastia Tortorello - refere-se a Marquinho Tortorello, Auricchio e, ao patriarca, Luis Olinto Tortorello, prefeito da cidade por tantos anos que não me lembro mais quantos, e homem cuja gestão é responsável pelo processo de transformação referido no texto.

Também a ele se pode atribuir a construção de zilhões de praças, numerosos recapeamentos da Av. Goiás, trocas constantes do quadro de professores no colégio Alcina Dantas Feijão e o estouro do AD São Caetano. É juiz e, além disso - dizem -, dono de Matão, cidade do interior de São Paulo.

Já a Auricchio pode-se atribuir o piscinão da Dellamare, os faróis com contagem regressiva da Av. Goiás, as palmeiras da Av. Kennedy (sobre cujo faturamento há controvérsias) e a perpetuação dos genes políticos de Tortorello.

Marquinho, eterno candidato a prefeito, nunca eleito, filho pródigo de Luis Olinto, foi vereador em São Paulo, será sempre protagonista de histórias maldosas que todos contam e estrelou a verdadeira traíção shakespeareana que foi seu pai preteri-lo em favor de Auricchio na preleção para o pleito em que este se elegeu.

* 'Rei' - Roberto Carlos. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, ES, foi o grande cantor popular da década de 60 e em diante. Encarnou, quando surgiu, o que havia de mais superficial no espírito do tempo: a rebeldia, as calças jeans, as gírias, o carro esporte, o rock n' roll, a tola canção de amor juvenil metida a descolada. Encarna hoje em dia o que há de mais superficial no espírito do tempo: é evangélico, só anda de branco ou azul para fazer da crendice modelo de integridade pessoal, preside os especiais de ano novo na Globo e vive do estrondoso e duradouro sucesso das canções de amor aguado e de-meia-idade que compôs de 70 pra cá (quando, é claro, envelheceu e parou de compor canções de amor desabusadas e tolas ainda que jovens).

* São Caetano do Sul -o C da sigla ABC paulista. Cidade de imigrantes italianos fundada no começo do século XX, que só conservou de italiano o sotaque e a festa em que se vende fogazza e se ouve tarantela (com um ou dos éles?). Espécie de dormitório para parte dos trabalhores paulistas. Diz que não tem favelas e risca seus limites bem rente à maior da América Latina, além de empurrar para Sto André a Palmares, uma menor. Noticiada, consequentemente, como irmã gêmea e mais quente de Oslo segundo o IDH, poderia ser caracterizada como uma espécie de Moema fora de SP, não fosse um pouco mais vulgar, pobre e ignorante. Sua maior rua é, e continua sendo, a Av. Goiás, margeada pela General Motors, como o Guarujá é pelo mar. O centro localiza-se logo ao sul, depois do qual encontra-se a Fundação e a Vila Prosperidade, bairros operários, não por acaso os mais vitimados pelas enchentes do Tamanduateí. Abriga uma cena de rock considerável, apesar de ser sede - dependendo da gestão, com má-vontade - de uma boa e até onde sei acessível escola técnica de música e teatro, a Fundação das Artes. Não tem boas escolas de ensino formal, bibliotecas ou cinemas decentes, corre atrás de Sto André no empolgante circuito de cultura atual, mas é prolífica em luminosos e programas públicos de saúde e esportes.

* Toppo Giggio - boneco sinistro, em tamanho real, apresentor de um programa infantil bem-humorado na década de 80 veiculado pela hoje extinta (amem) Rede Record. Também andava de skate e brincava de pogoball no ar.

* 'um salve' - expressão com que rappers e jovens de periferia saúdam - e assim legitimam-se junto - à comunidade em que vivem, viveram ou que frequentam.

* Voucs - tratamento familar, corruptela praticada pelos habitantes do ABC para designar a Volkswagen

* ZF - montadora de caminhões. A última indústria automobilística a se retirar da cidade, em meados dos anos 90.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um panfleto interativo

Como todos estão carecas de saber, a crise está chegando ao Brasil. A cada dia se noticia mais e mais demissões, falências etc. E todos os que trabalham em empresas sabem que os novos custos de operação estão sendo “descontados em folha”.

Apesar disso, parece que as pessoas não conseguem aprender. Gastam mais do que ganham, endividam-se, põem a culpa no Estado, esperneiam, reclamam e não mudam de atitude.

Provavelmente não estão aptas a reagir à altura aos desafios que vêm pela frente.

E isso, infelizmente, não é um “privilégio” do Brasil.

Abaixo, segue uma notícia que demonstra perfeitamente o que estamos dizendo.

Fala a verdade... que desplante, que pouca vergonha! Isso é que é...

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Do UOL Notícias*
Em São Paulo


Ex-funcionários ameaçam explodir fábrica falida na França








Funcionários demitidos de uma fábrica de autopeças na França ameaçaram explodir o estabelecimento caso não recebam um pagamento de 30 mil euros pela falência da empresa a cada trabalhador. Segundo a revista "Time", o grupo deu à direção da New Fabris três semanas para debitar o dinheiro aos ex-empregados da fábrica de Châtellerault, na região central do país.
A fábrica foi ocupada por 366 trabalhadores, que já atearam fogo a algumas máquinas e destroços no pátio da companhia. "Queimamos estas máquinas dois dias atrás para provar que estamos dispostos a ir até o fim", disse o ex-funcionário Daniel Thébault ao canal de notícias francês i-Télé, de acordo com informação da "Time". "Não seremos simplesmente descartados como objetos sem valor".

Ex-funcionários da New Fabris ocupam fábrica da companhia na cidade de Châtellerault, na França

Veja foto do protesto no Álbum do dia
Mais em Internacional
UOL Notícias

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... um país de verdade!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Se você pensou, antes de ler a continuação da frase, "uma merda", é preferível que nem leia o resto da mensagem.
Afinal, você certamente passa bem, goza de saúde, come à vontade, vive uma vida estável, cheia de delícias para o corpo e o intelecto, além de vislumbrar um futuro brilhante pela frente.

Vamos então propor um joguinho pra você se animar, já que a tv não acena com grandes novidades, seu time não joga hoje, a mulher e/ou o homem dos seus sonhos não vai entrar pela janela e seus amigos estão ocupados...

Ou melhor: vamos propor um exercício de ficção. Ponha sua criatividade para funcionar e vamos lá:

Se algo parecido com esse levante acontecesse no Brasil, como se daria? (escolha abaixo a alternativa que mais lhe aprouver.)

( ) A ação seria levada à cabo, sem maiores consequências. Os ex-empregados seriam processados pela empresa, que ganharia a causa. Ao final, eles estariam obrigados a restituir o valor do montante dilapidado e a arcar com uma ligeira indenização (correspondente a, digamos, 50% do mesmo montante) em nome dos proprietários da empresa.

( ) A ação seria levada à cabo. Mas os ex-empregados seriam presos por atentado ao patrimônio e processados pela empresa . No que a mídia ajudaria, simplesmente trocando a palavra “ocupação” pela palavra “invasão”.

( ) Na véspera da ação, dentre os ex-empregados, haveria um que, com prejuízo ou não de ser atuante na luta contra os patrões, denunciaria o complô de seus colegas; em troca, é claro de vantagens pessoais e de uma módica recompensa (digamos, de R$ 5000,00). Ao final, os trabalhadores seriam processados pela empresa, presos por atentado ao patrimônio (ou poderiam escapar da sanção, mediante pagamento de uma indenização estabelecida em juízo, acrescida de prestação de serviços comunitários - de que talvez alguns deles estivessem tão necessitados quanto os beneficiários)

( ) Na véspera da ação, por volta das 21hrs (hora em que estaria marcada a última assembleia) chegaria à central (secreta) dos trabalhadores livres organizados uma figura desconhecida, em chapéu e sobretudo cáqui. Ela se sentaria à ponta da mesa, se apresentaria com educação, aceitaria o café, rejeitaria o pão com manteiga e começaria a falar. Só sairia de lá, alta madrugada. Uma hora depois, seria a vez dos trabalhadores saírem, já com os ânimos apaziguados. No dia seguinte, às 18hrs, estaria marcado o churrasco de reencontro do turno demitido, na birosca do seu Zé, sem hora pra terminar.

( ) Na véspera da ação, por volta das 21hrs (hora em que estaria marcada a última assembleia), chegaria à central (secreta) dos trabalhadores livres organizados uma figura desconhecida, em chapéu e sobretudo cáqui. Ela seria escorraçada de lá, pelos cinco trabalhadores mais fortes. Nessa mesma madrugada, a central de atendimentos de emergência da Polícia Militar (por um desses acasos do destino) receberia chamados de mulheres e jovens, registrando queixas de desaparecimento.


( ) Um ano antes da ação, metade desses trabalhadores, com apoio e incentivo do sindicato, teria negociado demissão voluntária junto à diretoria da empresa. A outra metade teria sido jogada na rua por não aceitar o mesmo acordo. Um ano depois, se 100% dos trabalhadores daquela primeira metade fosse entrevistada, 10% diria que "passa bem, sabe como é" em seu novo emprego sem carteira; 20% diria que teve de aceitar acordo mais desvantajoso em seu último emprego; 30% diria que foi se virar (tem uma barraca de cachorro-quente, costura pra fora, lava roupa pra fora, faz docinhos, "trabalha" no farol); 30% diria que foi se virar e preferiria não dizer no quê. Seria impossível localizar outros 8%. E os restantes 2% seriam localizados e identificados, um belo dia, pela arcada dentária, numa ocorrência policial que nada teria a ver com a empresa.


( ) Qualquer uma das anteriores e, para o dia seguinte, estaria marcada uma marcha de apoio aos trabalhadores (insurretos ou mortos).

Atenção: se você escolheu esta opção, leia a sequência (mas, atenção: ela só vale para os que responderam “qualquer uma das anteriores”)

Se uma amostragem de 1000 pessoas fosse entrevistada e instada a se posicionar a respeito da tal marcha, 50% desse montante diria simplesmente que se emocionou com a manifestação; 30% diria que manifestações de massa (como marchas e piquetes) são formas antiquadas e atravancadoras de ação política; 20% diria que muitas pessoas podem se prejudicar com os problemas causados pela manifestação (idosos e enfermos em ambulâncias) e teria de conter o fôlego ao final, querendo dizer, na verdade, "foda-se" e segurando na última hora.


( ) Todas as anteriores, você simpatiza com os trabalhadores franceses, mas, no fundo, acha aceitáveis todos os tipos de humilhação que a situação de "trabalho flexível" cria e que os cortes agravam. (Afinal, você pelo menos não passa sem comer, pode dizer mentalmente "antes eles do que eu" e pondera que, para se arriscar tanto assim, sempre haverá o pcc, que, como os famintos, não tem muito o que perder.)

( ) Nenhuma das anteriores, você simpatiza com os trabalhadores franceses, mas é, também, filiado a um movimento social atuante aqui no Brasil. Por isso, aliás, acha esse questionário inteiro uma babaquice. (Se for este o seu caso, nós te saudamos e concordamos com você – desde, é claro, que sua ação política seja comprovada e você não se sirva dela apenas para conseguir votos ou vantagens nos meios onde a fraseologia de esquerda ainda abre portas e garante financiamentos).

obs.: eu disse movimento social. Colaboradores e ex-colaboradores de ongs, salvo raras exceções, não contam (pra começar não são trabalhadores, claro, porque ali se paga consciência, não suor, não é verdade?). E, se você não sabe por quê, procure se inteirar de quanto é a dedução que seu patrão consegue em contrapartida pelo que ele costuma chamar "captação de recursos". Você pode também conversar com seus colegas que caíram no spc depois que a última ong em que eles trabalhavam "faliu”. Pode checar se o seu ex-aluno de Português entrou na universidade, averiguar o destino do seu aluno de malabares, ou, em último caso, ver se aquele mendigo pra quem você deu uma quentinha não está mais lá (e sair rapidinho, antes que uma velhinha caridosa prove que, encerrado o seu contrato, ela faz hoje o seu trabalho melhor - e com mais gosto, aliás - do que você fazia ontem)


ASS.: VENENO DO MEIO-DIA

(o problema dos pseudônimos... verdade... mas não é assinar o que você escreve que te
transforma no homem que você gostaria de ser na frente do espelho. É?)


Simpatizantes, espalhem à vontade!

O tubérculo proibido

"you just keep me hanging on"

Lou Reed

Era uma vez uma linda moça que perguntou para um lindo rapaz:

-Você quer casar comigo?

Ele disse:

_Não.

E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, vivia fazendo compras, conheceu muuuitos outros rapazes, vistou muitos lugares, foi morar na praia, redecorou a casa. Estava sempre sorrindo e de bom humor, pois não tinha sogra, não tinha que lavar, nem passar. Nada lhe faltava. Bebia champagne com as amigas sempre que tinha vontade e ninguém mandava nela.

O rapaz ficou barrigudo, careca, o pinto caiu, a bunda murchou e ficou sozinho e pobre, pois nenhum homem constrói nada sem uma mulher!

FIM.

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O texto reproduzido acima tem circulado bastante pela internet. Da última vez que o recebi, tinha como remetente uma senhora, mãe de um velho amigo, ambos pelos quais tenho muito respeito.

Não a vejo há uns bons dez anos. Mas segundo me disseram, nada em sua vida mudou o suficiente para justificar semelhante atitude. Principalmente nada com relação a "seus homens" - nenhuma separação, crise matrimonial ou problema com os filhos, que seguem vivendo como quando éramos assíduos. Fiquei assustado.

Assustado, embora não surpreso. Não era a primeira vez. Há algumas semanas, lá estava eu entrando no orkut de uma amiga para deixar uma mensagem quando, de repente, não mais que de repente, bumba!, aparece ele, o hostil e debochado rompante esfola-homem, pronto para entristecer o rapaz desavisado. Juro que pensei em esquecer do bom propósito e, por um tempo, da amiga, também. Se não por me sentir ofendido, pelo menos por querer me furtar a pequenos amargores.

Não, não temos nada de mais. Nenhuma história picante para que o(a) leitor(a) suspeite das razões de minha insatifção. Somos amigos, só. Por isso, inclusive, conheço um pouco de sua vida amorosa. Não chega a pedir esse tipo de reação. E, além do mais, ela está solteira; razão pela qual, ao que parece, tem aproveitado tanto quanto qualquer mortal da tal liberdade...

Sei que o que está em jogo aí são caricaturas dos gêneros, imagens distorcidas das verdadeiras constantes sociais de que se compõem identidades, tralalá. Mas às vezes é nas brincadeiras eletrônicas que aparece o que não é elegante dizer claramente na vida ao vivo.

De certa forma já vi ouvi variantes desse e-mail em piadas sexistas um tantinho fortes demais. E também (se não contar aqui erto medo que tenho de ser rejeitado) em desculpas cuidadosas subsequentes a desilusões amorosas. E, se não for fazer muita confissão, à parte toda a civilidade, quando "tomo bota" (coisa que tem acontecido com irritante frequência), tenho sempre a sensação de que a coisa não diz respeito só a mim, mas também aos homens como um todo. Os mil jogos de sedução a que sou obrigado vêm de um receio confuso, mal declarado, a bem dizer de uma disponibilidade minada de recusa que, no final, toma a forma de desencontro casual, mal entendido.

Nessas ocasiões, checo o hálito e depois sempre penso: o medo devora a alma. Medo de, ao se implicar em uma relação, perder possibilidades de vida. Medo de não entrar em relação e ser descartado como coisa sem préstimo. Medo de se relacionar e dar de frente, dolorosamente, com os limites de si e do outro. O que infelizmente acaba valeu para mim também e não resolve nada...

Então, desiludido e sozinho, tenho ganas de teorizar. É o que faço. E você, leitor amigo, certamente não negará o ombro amigo a alguém que evidente está necessitado, certo? Vamos lá então...

O risco de sucesso, de fracasso ou de espoliação mina as relações antes mesmo que elas aconteçam. Quem quer que ainda se veja como um ser desejável e acaso tenha a intenção de amar frequenta lugares em que isso pode acontecer com um receio semelhante ao de quem se encolhe pelas ruas, com medo de ser roubado do que tem ou de lhe subtraírem possibilidades de vir a ter. Complementar a isso é a acomodação das relações, quando gente com afinidade finalmente decide que vale a pena manter o outro como objeto de amor. Surge daí uma forçação de barra, uma pressão impalpável de todo desejo rumo a um terreno pantanoso de amizade como prêmio de consolação, com escape rápido para a indiferença - que convém quando se espera que a vida se abra (ou quando ela de fato se abre) noutra direção mais preveitosa.

Pois é. Na vida em geral como no amor, todos vivem o risco de serem expoliados de suas condições de existência ou de afinal não conseguirem criar nenhuma. E em ambos os âmbitos o risco não vem só da rapacidade de um terceiro. Vem do medo de cada um e do próprio objeto de amor, das demandas insuportáveis desse outro que, malgrado a convivência, não conhecemos, e que de repente some pelos vãos de nossos dedos, assim, "naturalmente". Lutamos e nos esfalfamos pela famosa "felicidade" e se ela, um dia, decide virar para o outro lado, não há ninguém a culpar por isso - esse é o bordão que recitamos. Na prática, no entanto, a resignação vem impregnada de intenção, de ressentimento pelo objeto amado que nos usou e depois nos jogou fora, etc. O chão que nos sustenta foge dos nossos pés e culpamos a vida e a amada ingrata por isso.

Estamos certos e errados. A vida poderia ser outra, se os homens se organizassem para mudá-la. O amor poderia ser outro se os homens se organizassem para mudar a vida. Uma questão é, literalmente, a outra. E se não o fazemos há razões muito claras para isso.

Razões, não perspectivas.

Sim, meu leitor, meu confidente. Eu também já fui liberalista em matéria de amor. Confiei na mão invisível do afeto, no poder de compreensão mútua dos seres humanos e na capacidade da humana criatura em lutar pela felicidade comum. Hoje penso diferente e sofro muito. Não acredito mais no grande amor, sem aceitar muito bem o cinismo bem comportado, a trepadinha emborrachada, o estúpido passeio no parque policiado à salvo de ladrões e mendigos "que se chama amor".

Ai de mim, ai de nós! O processo pelo qual as mulheres se libertariam do julgo patriarcal fez com que elas se tornassem tão vis quanto os homens são. O louro de sua luta milenar: a árvore da sapiência virada ao contrário, de onde brotou o tubérculo proibido! E desde então atributos de virilidade e de empatia são disputados a ferro e fogo entre dois amantes, doravante dois inimigos.

E eu que, na vida prática (expressão tão mentirosa!), sempre achei que as questões de gênero se resolvessem a dois. Ledo engano!

Vamos de mãos dadas, eu dizia, mesmo quando nos odiamos. Vamos lá! Sem café com leite, sem desvantagens de partida! O que te dói, te dói, eu percebo; o que me dói, me dói, perceba. E lidemos com isso, amiga, esposa, mãe, mulher. A cultura não vai fazer isso pela gente (faz o contrário, aliás). A disparidade de gêneros é uma ilusão, assim como são os nomes - mulher-viril, mulher-submissa; macho-alfa, macho(cado); amélia, maria, diana, danuza. Nomes e nomes. E mais as dores que levamos conosco e que os cartórios não discernem, tampouco os mais sábios dos livros...


Eu estava enganado. A irreconciliável disparidade existe. E assumi-la é condição sine qua non para uma mulher se apossar do seu destino, tornar-se bela, forte, racional e livre.

Livre? Racional? O quanto? Não sei. Quem sabe? Litros e litros de tinta são derramados a cada semana para melhor descrever a confusão que o e-mail acima reduz com prazer. Ou para agravá-la, como fazem as revistas semanais de gênero.

Nada feito. O melhor dos esforços é vão. Vencem as revistas, vence a humilhação e o amor pobre. E cada passo dado na direção de um par continua sendo um passo dado em direção a um abismo. Cada página virada dos livros que ninguém quis ler e ainda tratam disso só descreve o negror com tintas mais carregadas.

Está bem. Talvez você não acredite em mim, leitor. Deve pensar que tudo isso é baboseira, que nenhuma cabeça conseguiria reverter o que não se resolve na cama.

Concordo, mas acrescento que no meio campo entre a cama e os livros, nas infinitas dr's, lutamos contra verdadeiros fantasmas que, cedo ou tarde, voltam para nos assolar. E que nossa solução para tal é a mesma que adotamos na vida em geral (brasileiro nunca desiste, só o amor contrói), conduzindo sempre à resignação munida de autojustificativas mais ou menos eficientes.

Você se lembra de seus últimos bate-bocas e daquela questão que nunca vai se resolver, do mútuo acordo de "tolerá-la" (palavra tão comum hoje em dia!). Mas mesmo tocado pelo argumento que o implica, você pode não estar convencido.

Tudo bem. Eu admito isso. Quem sou eu pra falar da vida alheia? Ainda mais nessa zona de mistérios cuja delicada carnatura só muito raremente vê a luz do dia...

Pois bem. Talvez você acredite que viva na terra onde o afeto reina livre, leve e solto. De fato, a admissão de que o amor não resolve nada sempre será um duro golpe para um brasileiro, criatura vaidosa da sociabilidade aberta e permissiva que tanto invejam os estrangeiros.

Vamos entrar nessa, então. A gente poderia, por exemplo, tentar tratar as questões de gênero como às de futebol, não é mesmo? Há decerto um pouco de guerra dos sexos no amor, mas isso é compensado pelo bom tempo. Quem pode ficar em casa quando o sol raia alto a 32 graus durante um quarto do ano? Sempre há ocasião para uma peladinha. E todo mundo sabe: na mesa de bar, corintianos e são-paulinos, mesmo que não se conheçam, deixam de lado suas diferenças para curtir a cerveja e o prazer de gostar de futebol. A própria animosidade, inclusive, vira fator de agregação entre rivais, piada que aproxima desafetos em potencial.

Por outro lado, no estádio, é bem verdade que cada qual vira a única e altissonante palavra de ordem admissível, o mesmo hino de afirmação, contraposto ao do inimigo, infinitmente vil e desprezivel. Uma faísca no lugar certo e digliam-se, matam-se. Depois vão para casa e chamam churrasco com os amigos para contar vantagens.

A política de verdade deverá responder à questão, então. Sim, a verdadeira, aquela que não demanda instrução, a da habilidade conquistada a duras penas no dia a dia, não a noticiada, a da praxis clandestina nas dobras do mundo e do corpo alheio.

Há o que dizer sobre política e sexo. Tanto no sentido das bandeiras públicas, quanto no da fé nos microacordos da vida privada.

Quanto à primeira, não sei, pode ser coincidência, mas me parece que a pessoa que levanta bandeira de politização dos gêneros, na maioria das vezes, tem dificuldades em se admitir como desejada e de desejar (veja bem, leitor(a) eu disse "pessoa", neste caso). Em termos mais singelos: onde quer que esteja, vocifera contra a milenar exploração das mulheres, contra o chauvinismo dos homens, contra a resignação das mulheres ao papel de objeto, contra a incapacidade dos homem em assumirem o papel passivo que se lhes vêm propondo. Questões que naturalmente podem se manifestar tanto em escravidão domiciliar quanto nas más intenções do amigo que propõe dividir meio a meio a coxinha no bar da esquina.

Enfim, confunde-se gentileza e paquera com manipulação e um belo dia a dita cuja pessoa politizada se pega tecendo loas aos animais, seres desprovidos de malícia (não raro feministas e homens sensíveis são também vegetarianos e defensores dos direitos dos animais).

Pior: às vezes, se a gente observar bem, por trás de toda a ilustração e a ira justa, até um pouquinho da boa e velha canalhice bem à brasileira aparece. Por exemplo, já ouvi uma conhecida dizer que cortou relações com um amigo de longa data porque ele teve um filho; ele, bem ele que, como ela, era "contra a procriação". A mesma conhecida, aliás, praticava sinceramente o "casamento aberto", à contragosto do marido. E, a seguir, não hesitou em largar sua agenda afetiva quando encontrou o "homem de sua vida". Enfim... ia sempre para onde o vento agitasse as palavras mais belas... e atropelava corações no meio do caminho... e sentia-se tão melhor quanto mais longe estivesse de si mesma e do outro (não do Outro, preocupação constante).

Pois é. As mais sublimes intenções de esclarecimento dessa zona de claro e escuro a que todos nós estamos condenados parecem fazer figura tão lamentável quanto a bandalheira da política institucional, que acompanhamos bufando de tédio (ou de ódio) no jornal das oito. As mesmas trapaças, as mesmas promessas em que ninguém mais acredita, a mesma disposição para o diálogo infértil, as mesmas atitudes regressivas assumidas com desfaçatez ou estertores de culpa.

Neste exato momento, meu confidente pode estar desconfiando de mim. Talvez me ache um pouco amargo demais, cutuque este acinzentado bloco de raciocínio e encontre razões escusas por detrás da pintura esmaecida.

Talvez chegue mesmo à conclusão de que, por detrás de um cara decepcionado com alguma ex-namorada, há um verdadeiro conservador em matéria de costumes. Alguém que secretamente tem saudade da era patriarcal típica, na qual a liberdade da mulher não era uma questão. Alguém que, bem pesados os fatores, prefere à liberdade das mulheres de ferir e serem reconhecidas por isso nenhuma liberdade (que elas sofram em silêncio uma situação de humilhação unilateral).

Nesse caso, acho que nos desentendemos, meu caro leitor. Tudo não é ironia contra as mulheres que se levantam contra a opressão. Achamos mesmo que a exploração feminina é um fato e quem o nega é cínico. Está presente em favorecimentos chauvinistas na vida profissional; reflete-se em situações domésticas humiliantes, quando não violentas, e está garantida por uma educação inibidora ou espúria. Sem contar as mil e uma imagens da mulher-objeto, as obrigações da beleza-sempre-em-dia, as elegantérrimas publicações masculinas... e também, como se não bastasse, a sempre atuante pressão familiar para fazer, à forceps, de cada mulher, uma mãe. Realmente, é muita coisa para qualquer um suportar.

Dito isso, vou dizer o que eu acho de verdade.

Acho que o que gera esse tipo de violência contra os homens (sim, o termo é esse) não tem nada a ver com o tipo de opressão que acabei de listar - a familiar, a dos maridos bêbados, a das sovas ocasionais, a do galanteio canalha, a da sala de jantar, a dos fogõezinhos de brinquedo, a dos olhares enviesados na empresa, a da dupla jornada de trabalho, a da coação para a maternidade.
Todas essas, mesmo que ainda muito praticadas, estão na pauta do dia. Neste momento, se a gente ligar o televisor, seja na TV senado, seja na Cultura, seja na novela das oito, vai ter alguém falando sobre isso. E se trocarmos o canal, assistiremos ao último pronunciamento da Dilma Houssef.

Não, leitor(a). O verrume que se sente nesse texto e em atitudes parecidas (este sim o mais recente dos tabus) não vem dos desfavorecimentos. Ao contrário. Vem dos "direitos" que, como todos os direitos são e não são reais, descrevem e não descrevem a realidade, apontam para onde a vida gostaria de ir, não para onde ela está.

Sim, a agressão que andam praticando contra os homens vem da posição ambivalente das mulheres - cada uma, como indivíduo - em relação à nova liberdade supostamente adquirida e a ela destinada.

Não tem ranço no que estou dizendo. Por mais desenvoltas que pareçam, por mais que alardeiem conquistas e vantagens e, literalmente, batam o falo na mesa (como uma outra amiga gostava de dizer), apossar-se do que se pode ser não se faz impunemente. É difícil, não está ao alcance de todas as mulheres por critérios de classe e, culturalmente, soa artificial no começo, precisa ser afirmado e reafirmado, não entra facilmente nos costumes, não aparece rapidinho na frente do espelho, não vira tesouro de linguagem de uma hora para outra.

E nos momentos de revolta, sempre haverá a sombra do homem qualquer bufando no cangote, sobre a qual se poderá descontar a raiva pelo futuro brilhante que "só para mim não sorriu" ou "que eu vou conquistar a unhas e dentes".

Que conste o fato de que todas as solicitações para que as pessoas se emancipem (sejam elas homens ou mulheres) têm como fundo, não uma vida alegre, livre de preconceitos e esclarecida, mas sim uma de compromisso ainda mais ferrenho para com as necessidades que já conhecemos: a de fazer-se empreendido, energético, falar bem, dormir pouco, refrear-se ao sexo, à comida e outras delícias excessivas (enfim, a de dominar-se). Adicione-se a isso o fator de haver ou não emprego coroando a empreitada - afinal, não é um sucesso histórico que garante a cada qual o de-comer e os prazeres e perspectivas que todos merecemos. Complemente-se isso com a publicidade investindo pesado no bordão "o mundo é seu, mulher" e a realidade correlata ser encontrável, apenas, na vida de 2% da população mundial. E aí, só aí, acho que dá pra começar a entender esse texto.

Em termos mais diretos, a aura do patriarcalismo permanece, invertida, quando a conquista universal dos direitos das mulheres se transforma em objeto de disputa mercadológica, em artigo de consumo como brincos e roupas elegantes. Ela permance pairando pelos ares, como subproduto fantasmático de um roubo histórico. Assim ela perverte em dominação a emancipação das vencedoras e corrompe o anseio de autoafirmação das mulheres perdedoras (o que todas são antes de "vencerem" na vida, ou se não "vencerem") ao ponto de transformá-lo em puro ressentimento contra "a natureza intrinsecamente predatória do macho".

Para concluir, este e-mail não é um conto de fadas, como faz pressupor a forma do relato da "narradora". É um pesadelo em que estão implicados ativamente todos os seres humanos que se acreditam capazes de gozar de verdade. É a queixa agressiva de homens e mulheres resignados ao amor pobre (ou à falta dele), incapazes para a reversão pública da dominação (que, literalmente é coextensiva à privada) e que, ainda por cima, acreditam compensar a derrota partilhada com o mínimo "exercício afetivo" que lhes coube: escrever e responder cartas à distância em que fica muito clara a opção pela violência em detrimento da reflexão sobre a solidão. Cuja justificativa e aceitação é, aliás, como todas as coisas, não algo a se subverter coletivamente e sim algo a ser disputado.