sábado, 17 de outubro de 2009

Desta janela, sozinho

Esta moça que abre agora a janela em frente à minha, me cumprimenta, diz para marcarmos um jantar qualquer dia desses e, finalmente, se despede, soprando um beijo com a mão espalmada, me lembra uma outra.

Seu nome é Flavia Lima. Tem 15 anos e é aluna do 1B. Senta-se de costume na terceira carteira da fileira à esquerda do professor, colada na parede, junto às demais meninas de sua "turma" (Carol, Julia, Camila, Bruna, Aline, Ana e assim vai).

Quem é sua turma? Uns dois meninos que conheço, é bem verdade; mas, em geral, as demais meninas de sua classe.

Todas? Não. Só as que sejam preferencialmente loiras, preferencialmente tenham olhos azuis (os dois ), falem bem, sejam desenvoltas e nunca deixem de se produzir quando vão pra escola (lápis, ok; sombra, não; chapinha, imprescindível).

Além dessas, também aquelas cujos pais têm dinheiro (não precisa ser muito, mas não pode ser pouco) e aquelas cujos nomes circulam sem segredo na boca dos meninos mais bonitos e admirados.

Elas são amigas? Podem até ser, mas é bom não exagerar nessa afirmação.

É que, se a gente fosse imaginar uma história contando um dia na vida de Flavia Lima, já na primeira cena seríamos obrigados a inventar alguma rusguinha pessoal, alguma intenção decepcionada, alguma conjunção passageira de interesses que depois virou ódio mortal (namorado roubado, cola regulada, roupas emprestadas e nunca devolvidas, sucesso demais pra uma desprezo pra outra na enquete da semana etc.)

Se fosse americana, seu nome seria Tiffany. Barbie e a Xuxa são seus perfeitos decalques em plástico. Como elas, Flavia também tem casa, carro e namorado de brinquedo.

Quando ela abre a boca, sua voz esganiçada vem disfarçada num tom ondulante, com acentos longos e irritantes em sílabas anasaladas. Em tal roupagem sempre alegre vêm vestidas, é claro, enormes e estravagantes abobrinhas, que, por incrível que pareça, nunca tardam a encontrar ouvidos dispostos a cozinhá-las em fogo baixo.

Sim, ela é bela, assim, em estado de manequim. Mas talvez seja ainda mais bonita quando seu corpo se agita ao soprar do vento. E também quando ela, cansada, se senta de novo e, como se um dispositivo mecânico ligado a um detector de atenção captasse os olhares ao redor, retorce sua arrojada maquinaria de carne, pele e ossos numa postura sensual.

Passou no corredor, uma ondinha de calor sempre esquenta nossas bochechas. A rapaziada se coça, se irrita, bate a mão na testa. E tem sempre aquele que é tragado da cadeira, vai flutuando em seu encalço, pra logo em seguida, bum, estatelar-se na lousa.

E lá se vai ela, fazendo a curva rumo à mesa do professor, que detesta, mas precisa cativar, com um olho no boletim e outro na balada de sexta-feira.

Como eu disse, essa é Flavia Lima. É Flavia, nome comum de 1950 pra cá, característico de menina tipo pricesinha de classe média. É Lima, sobrenome nem muito vultoso (como Almeida Prado ou Telles), nem muito comum (como Silva).

Rodando o relógio sessenta anos para trás, ela já não se chamaria mais Flávia, nem desfilaria seu corpo leve nas alamedas da minha classe de 1o ano do colegial, falando alto, deixando um rastro de perfume, balançando os cabelos loiro escuros tingidos, exibindo as coxas e a tatuagem de estrelinha no tornozelo esquerdo.

Talvez pudesse se chamar Maria Aparecida.

Seria filha de comerciante, mas o ofício de seu pai não transpareceria nas roupas que usa, pois seu composé seria, como o de todas as demais alunas, uma daquelas típicas camisas de linho branco, o paletozinho azul marinho, a saia de pregas, a meia alta e o sapato de fivela. Toucaria seu rosto delicado um pequeno topetinho armado com grampo, único adorno que, mesmo assim, faria com que destoasse das demais meninas da classe, ainda afeita às trancinhas do secundário.

Seu namorado não seria de plástico, nem menino, nem um pretendente qualquer morando dentro de um garoto qualquer numa carteira qualquer daquela classe. Estaria no quintal de Sr. Alceu, sorvendo o último gole de sua xávena de café, enquanto pensa numa maneira sutil de demonstrar seus dotes ao pai, que já planejou a negociata há muito tempo.

Todo o setting escolar seria diferente, também.

Ela levantaria a mão antes de se levantar, pedindo permissão. Não olharia para ninguém enquanto passa no corredor. Os meninos, também, teriam os olhos pregados nos Prolegômenos elementares de Trigonometria, sucumbindo com intensidade igual à nossa a uma imaginação amorosa mais casta. As outras moças dariam risinhos abafados, ou permaneceriam sérias, remoendo a inveja em silêncio (ou então, pode ser que não percebessem a cena, distraídas com o ponto do tricô que fazem escondido por debaixo da carteira).

Quando ao invés de se dirigir à mesa do professor ela saísse direto pela porta da sala, um inspetor de classe intrometido perceberia que ela anda um pouco mais rápido do que de costume nesta bela manhã de sol. Sim, de fato ela caminha ligeiro, pois está ansiosa para chegar em casa onde Jaime, homem que conheceu na matinê do Cine Bilon, executa ponto a ponto o pedido de casamento planejado pelos dois depois da sessão de Casablanca, estreia da semana passada.

Mas se, por obra de um acaso qualquer, antes de chegar à porta principal do colégio, Maria Aparecida escorregasse no chão de mármore recém-encerado do pátio, uma tragédia aconteceria. Jaime, seu cotado e (coisa incomum na época) apaixonado pretendente, ficaria a ver navios. Ou quase. Casar-se-ia com Francisca, prima de Maria, arrebataria a venda de Sr. Alceu, alcançaria destaque na coluna local ao transformá-la em boutique. Depois faria da notoriedade pública carreira política ascendente e segura. Por fim tornaria-se adido à embaixada do país, e morreria no Cantão, amargurado de amor, ainda que com a gloria cívica assegurada.

Pouco antes disso, no entanto, Sr. Alceu e Dna. Maria pegariam mania de vestir luto no aniversário da menina e dariam jantares para os íntimos a cada um dos tristes anos completos desde o fatídico evento. Evento aos quais Jaime sempre compareceria.

Agora ele acaba de chegar de um desses jantares. Está exausto do esforço de fazer-se polido para a família a que pertence não muito bem como gostaria. Uma vez devidamente empijamado, logo depois de fazer a higiene pessoal sem prestar muita atenção, puxa uma cadeira para bem diante da janela de seu quarto (que dá de frente para o coreto principal da cidade) e se diverte imaginando ali, do outro lado da praça, mão de moça fechando uma cortina e deixando coar no ar seco do interior a frestinha de luz que faria de sua noite uma outra noite pouco menos noite do que esta.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O sono dos justos

São 3h da manhã e eu acabei de despertar. Dá uma sensação esquisita, incômoda, irritante.

Antes eu até gostava dessa história de ficar acordado à noite, ouvindo os sons misteriosos da rua, olhando as coisas com mais calma, me absorvendo em pensamentos, lembranças. Agora não gosto mais, não.

Na verdade, sempre que passo da hora de dormir, me sinto como um velho pedaço de engrenagem girando em falso dentro de um relógio desregulado...

Tinha colocado o alarme para as 6h da manhã. Não costumo fazer isso. Em geral minhas atividades começam depois das 9h e 30, banho e café tomados. Sou autônomo, faço meu próprio horário. Mas o caso é que, mesmo a contra-gosto, coloquei.

Pra ser sincero, não é de hoje que vivo me estranhando com essa impertinente maquininha de jogar gente no mundo que dorme ao lado da minha cama todos os dias (às vezes sem mim) chamada despertador.

Os adultos repreendem as crianças por falarem palavrão, por chegarem sujas em casa, por brigarem na rua, trancarem-se no banheiro. Contra isso, eu, quando criança, guardava sempre comigo a impressão de que a verdadeira coisa indigna fosse essa história de acordar antes do dia raiar e passar a tarde encafuado em algum lugar inatingível a olhos humanos.

Sem pensar nas pessoas.... não dá uma dó tremenda? Está lá a madrugada, em paz, escoando seus perfumes, seus contornos fugidios, sem nenhum barulho, apito ou grito a importuná-la. Seus cabelos escuros se estendem horizonte à fora, servem de coberta para todos. E ela segue, fazendo firulas que não se vê, lançando ao largo os braços transparentes, leves, de ninguém... De repente, sem avisar, passa o primeiro ônibus estraçalhando sua calma noturna. Seguem-lhe dois ou três carros intrometidos. Ouve-se uma freada ao longe. E logo já não se sabe o que é este barulho: o vento balançando as àrvores ou um monstro irritadiço qualquer, assoviando alto sua pressa de alumínio, girando, perto, longe, perto, longe, em espiral, desatando o céu escuro e amarrando juntas as ruas perdidas no mapa, com seu cordão de fumaça e arrepios...

Mas hoje não é caso de amor à madrugada. Não mesmo. Pus de verdade o relógio para as 6h, determinado a acordar cedo.

Fiz isso pensando no trabalho desta semana, que tenho que entregar na editora até as 13h; na casa, que tenho que arrumar durante o dia. São coisas importantes, não posso perdê-las de vista (ao contrário dos carros, que me atravessam e que não conheço).

O certo mesmo é que aceitei ceder ao despertador mais por um mínimo senso de autopreservação do que por qualquer outro motivo. Pois acontece que, há uma semana, virei uma noite em claro e, desde então, tenho vivido recluso e insalubre feito um vampiro (a madrugada não é mais tão bonita...).

Nos primeiros dias acordei por volta do meio-dia. Logo nos dias seguintes, fui empurrando o horário pra mais tarde. Eis que um belo dia (sexta, sábado da semana passada? Não sei...), despertei às 17h. Noutro (certamente essa semana), encarei o relógio espantado: 19h. E, ontem, vergonha máxima, perdi totalmente o controle: levantei da cama e fiz meu café pontualmente (?) às 23h...

Faz pouco tempo, ouvi no rádio um cara dizer que os horários em que se dorme e come são como que a condição básica pra cabeça da gente funcionar direito. Duvidei, na hora... Afinal, se fosse assim, o mundo inteiro estaria variando. Quem hoje não come às pressas e às vezes pula refeições? E os vigias noturnos, o que dizer deles? No mínimo deveriam ser internados em casa de saúde... Tudo biruta. Além disso, quem bota a mão no fogo pelas receitas de bem-estar do Dr. Soporíferus Tranquilis, fone 3456-5478, e-mail durmaempaz@mistersleep.com? Quem garante que aquelas sábias palavras não foram gravadas às 3 da manhã para entrar no ar bem naquela hora?

Tudo isso é de se pensar.

Agora... ninguém apaga o fato de que eu sinto todo o meu corpo latejando, a cabeça inchada, a boca sarrenta. Ninguém me consola da culpa de ter perdido todos os bons compromissos da semana. E, como se não bastasse, quem é que vai arrumar minha casa, um verdadeiro caos, enquanto eu vago pelas ruas desertas da cidade em busca de uma jugular quentinha pulsando o sangue sadio da vida de paz e alegria que eu nunca conheci?

É por essas e outras razões que, para hoje, estou planejando fazer um esforço de recuperação da manhã.

Chego mesmo a jurar: não dormirei até que chegue mais ou menos 23h da noite. E aí, só aí, tomarei um banho quente, colocarei meu pijama de bolinha, o gorrinho de pompom, ajeitarei minha cama com três cobertores e ficarei lá, até que o despertador, meu eterno desafeto, me acorde às 8 da manhã.

Cumprido esse simpático ritual profano, não mais sentirei falta do aceno da madrugada passando pela janela do meu quarto. E, na falta de outra cena mais tocante, terei de me contentar com o sóbrio e funcional mundo dos vivos, no chamado "dia seguinte".

Sairei bem cedinho rumo à padaria e pedirei meu já costumeiro misto-quente-com -café-com-leite, que comerei calado (não gosto de conversar de manhã). Voltarei para casa e arrumarei a cozinha ouvindo despreocupado as notícias do dia (ou melhor, as poucas desgraças que os jornais, agora, colocam no meio das 3468 dicas de bem-estar e investimento com que eles nos brindam). Em seguida, responderei a mensagens eletrônicas, composto e responsável nas profissionais, efusivo nas privadas. Tudo isso para logo depois mergulhar com afinco na revisão da semana (durante a qual farei um esforço para não perceber que tenho variados complexos adquiridos por meio do imponderável mas certo entrelaçar-se das neuroses de meus pais).

Durante todo esse tempo, o meu celular estará ligado, mas não receberei ligações. Um pouco porque estarei ocupado; um pouco para dar a impressão de que me absorvo totalmente no que faço. Principalmente porque é bom manter distância dos conhecidos e afetos durante a semana (até para ter o que contar depois...).

Se tudo isso transcorrer como previsto, logo que chegarem as tão esperadas 23h de hoje, finalmente terei sono. E aí, tendo vivido sem ênfase o dia, cumprido diligentemente todas as minhas obrigações, estando acaso também de posse de todas as partes do meu corpo e dos meus sentimentos (ambos conciliados pela rotina), dormirei sem solavancos o sono dos justos.

E se, como acontece aos demais seres diurnos, enquanto eu estiver ausente da convivência humana, alguma coisa atravessar minha cabeça dormente, espero desde já que não seja o novo semblante tumular das madrugadas e sim a imagem de um dia tão equilibrado, lúcido, regular (e absurdo na sua falta de sentido) quanto o que viverei hoje.

Desejem-me sorte.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mata-borrão

Certa noite, quando era menino, sonhei que era uma pedra.

Bem no dia seguinte, por um acaso, a professora deu como tarefa de classe desenhar o que a gente gostaria de ser não tivesse caído na terra em forma de gente. Era uma atividade especial, dessas que têm cara de "artes" no primário, planejada para desenvolver a imaginação e tal.

Imaginação, contudo, era justamente o que me faltava ali. Passei toda a primeira parte da aula coçando a testa, riscando daqui, dobrando as pontinhas da folha de lá... e nada. Espremi a cabeça por mais uns dez minutos e, não sei se pensei no meu sonho ou não, mas o fato é que, num dado momento, o que saiu no papel foi uma coisinha esquisitíssima, uma bolinha meio torta, em tons escuros quentes. Sim, olhando meio enviesado, de fato era uma pedra. Estava ali, para qualquer um que quisesse ver, exposta em cima da minha mesa, quase em alto relevo...

Nao sei o que aconteceu em seguida. Dentro de instantes, era eu quem estava diante da tia Julia, ou melhor, ao lado dela, que espiava meu desenho, por cima do meu ombro esquerdo. Ela olhava, olhava, olhava a pedrinha e nada de dizer alguma coisa... O tempo foi passando e ela continuava ali, empoleirada na cadeira, observando o que eu tinha feito (e minha mão tímida imperceptivelmente se deslocava, pousando entre o borrãozinho e a carteira vizinha).

Ela continuava ali, fazia tempo já. Muito tempo. Tempo suficiente pra que eu começasse a me incomodar, como se tivesse feito alguma coisa errada, roubado alguém, xingado a mãe do diretor... dançado na chuva e brincado de lutinha com o Gabriel e o Finatti... tomado chute no saco da Isabella e puxado os cabelos dela... e depois, no fim, tomado esporro da Tia Nega... a tia mais brava da escola!

E aquela pelota no meu papel? O que ela iria pensar? Que era preguiça da minha parte, certamente. Ou então, que fosse uma coisa genial, de outro mundo, feita para se admirar aos poucos, com olhar clínico.

Nada disso. Ela olhou bem o meu desenho, ainda de longe, e me perguntou:

- O que é isso, Vinicius?

- Uma pedra, pssora - eu disse baixinho, cortando a pergunta, com receio dos outros e do carimbo escarlarte, escondido no bolso da calça dela, prenda para alunos desaforados.

Ninguém ouviu, ainda bem. E ela estranhou, sim, mas não me reprendeu com um "refazer". Embora, logo em seguida, tenha pego a folha da minha mesa, posto bem rente aos olhos e, como se conversasse com o próprio desenho, dito, meio resmungando:

- Com tanta coisa que você poderia ser, você escolheu uma pedra?

E eu:

- Sim, professora, queria ser uma pedra.

Percebi que ela não gostou da resposta. Mas não estava disposto a inventar outra coisa. A tia Júlia também era insistente, e agora fazia ecoar seu vozeirão rouco por detrás da folha, como se fosse a própria pedra a me confrontar:

- Bem, Vinicius... isso pequenininho no meio da folha não me parece uma pedra. Não tem nada a ver com uma pedra. Olha só, como está cheio de cor...

Pensei um pouco e achei que aquilo fazia sentido. Pra ser sincero, a pedra é o que eu imaginara. Já o desenho, que dependia da cor para viver, não era uma pedra. O que se via, em verdade, era mesmo só as pelotinhas de cera, espremidas umas sobre as outras, lutando entre si, num redemoinhozinho informe...

Tia Julia tinha lá sua razão... e eu estava pronto a admitir isso, quando me dei conta de que ela já não estava mais lá e sim no outro canto da sala, olhando o desenho dos outros.

Nesse momento, não tive dúvidas, abri de novo a caixa de giz de cera e desenhei mais umas coisinhas, riscando o papel um pouco mais forte ainda do que tinha feito antes.

Quando ela voltou, já chegou dizendo:

_ E aí, Vinicius? Deixa eu ver o que você fez com a sua pedrinha...

Era um bonequinho, também colorido, agora com as cores separadinhas, bonitinhas. Cabeça bordô, bracinhos verdes e perninhas azuis...

... chutando a pedra.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um professor, não um professor de colégio...

Desde terça passada, tenho meu primeiro aluno de redação. Isso faz de mim professor de Redação, ou pelo menos deveria fazer.

A mãe chegou até meu nome por meio de uma ex-colega, atualmente afogada em prazos, que me passou o serviço. "É tranquilo, Vini. O menino é filho de uma amiga dos meus pais etc".

No dia seguinte, às 9 da manhã, a mulher me ligou...

Passada uma rápida apresentação, ela começa a me explicar o quanto seu garoto vai bem na escola, a dizer que ele não tem nenhuma nota abaixo da média, que parece gostar de Português, coisas do gênero.

Quanto mais ela fala, mais eu estranho a situação. Fico pensando que, não sendo caso de reforçar algum ponto específico da matéria ou de acompanhá-lo nas lições de casa, o serviço talvez exceda minhas expectativas; minhas capacidades, até.

E finalmente, três minutos depois de iniciada a ligação, sou eu quem começo a falar...

Tomando cuidado para não me diminuir muito, deixo claro à senhora - mulher de voz suave e calorosa, embora um pouco agitada - como sou iniciante. Digo que só tive experiência em Ensino Médio, com plantões de atendimento. (Evito dizer que dei aula particular uma vez só, nos 50 minutos que antecederam a desistência da minha aluna, minha ex-namorada, há uns quatro anos...).

Em vão: ela mal me deixa terminar as desculpas, retruca que não quer aulas de reforço. Com certeza quer me tranquilizar, sabendo-me já inexperiente. O efeito é o contrário.

Penso: "Mas, minha senhora, se não quer que seu filho tenha um acompanhameto em suas tarefas escolares, o que quer de mim, afinal?". Estou nervoso. Vou andando pela casa segurando o telefone. Chego à cozinha e, com a mão restante, faço às pressas um cafe.

A sra C. continua sua empenhada explicação.

Ao cabo de sua fala, percebo que ela quer que o menino produza regularmente, pois "o colégio já realiza muito bem o trabalho de base". Para reforçar sua preocupação, faz questão de me lembrar que escrever bem é um aspecto "fulcral" da vida de um adulto que certamente terá de elaborar memorandos, atas de reunião e até, quem sabe, artigos para publicações científicas. No que eu concordo...

Nem por isso deixo de preveni-la mais uma vez: "Veja bem, dona C.. O que eu conheço é o programa comum de Redação. Isso que a senhora está querendo, nunca fiz. Posso tentar, sim, mas fazer nunca fiz...".

Estou prestes a confessar a ela o nível lamentável de nossa preparação pedagógica na licenciatura. Penso em dizer que nunca li uma linha de Piaget, que conheço Vygotski só de nome, que passamos a graduaçao chorando as pitangas da educação brasileira.

Refreio-me; dou um gole no café.

Ela parece pressentir a escapada final e atalha: "Tudo bem, Vinicius. Eu conversei com a L. e ela me disse que você lê bastante e tal. É isso que estou procurando: alguém que goste de ler e de escrever, não um professor particular, não um professor de colégio...".

Quase engasgo com o café...

Enfim, um pouco por necessidade, um pouco por querer tentar a vida de professor, aceitei a empreitada.

Ela pareceu ficar satisfeita com a ideia. Em tom menos exaltado, me passou seus cinco telefones de recado (medida necessária, ja que não se pode atender celular nos plantões) e o resto da ligação ficamos escarafunchando as agendas. Segunda-feira era dia de judô e japonês; terça, de tênis e alemão; quinta, aulas de música... Quarta foi o dia que acertamos. O endereço é tal (o pagamento fiquei de ver).

- Mas, enfim, Dona C., como se chama o seu filho e em que série está?

- Guilherme. Está na quarta série...

Derramei o café.

domingo, 13 de setembro de 2009

Il libero vingatore

Frei Caneca sentido Paulista. Pacotão, por volta dos 30, caminha e bambeia na calçada. Bata roxa sobrando, calça jeans, sandália anabela. Maquiagem ridícula para um dia de sol, chapinha, óculos escuros.

Fala alto, enquanto a mão de pãozinho esmaga um LG b055-al contra a orelha.

Mas não, Luis! Nesta hora você não pode ter coração mole. O papai tem, a mamãe tem, a gente não pode ter... Não interessa, não interessa... se não aceitarem, a gente entra com uma ação de despejo... É muito simples. A lei tá aí pra isso...

Do meio campo, correndo, lá vem Massaro, camisa nove. Passa por um, dois, dá nó na defesa e faz vibrar a torcida napolitana. Chuta cruzado...

Fim de jogo. Fiorentina eliminada do campeonato.

Duas festas

Chegar em festa dizendo "vamos ver se eu me animo" é um problema. Na maioria das vezes a gente não se anima e fica ping-pong, ping-pong, pra lá e pra cá, até sair pior do que entrou.

Na verdade, nem tudo é desgraça desde o começo. Há um momento caloroso.

É claro, você acabou de chegar. Cada um que aparece muda a paisagem, o que é sempre muito agradável pra quem já está na festa e não quer que o caldo empelote. Um corpo esbarra nos demais; surge um ventinho que balança a folhagem. É o que basta: te abraçam, te beijam, mostram-se interessados. Você sorri, fica alegre.

Alegre, não. Mais do que isso, pois até aquele estouro de mulher ruiva, lindíssima, com gestos de bailarina, que você não vê há uns três anos, te olha em cheio, cumprimenta com vontade, conversa, parece feliz em te ver! Você até começa a pensar: "Putz, não é que valeu a pena?".

Aos poucos, no entanto, satanás festeiro começa a tirar as asinhas de fora...

Um dos seus comentários sarcásticos não emplaca. Daí a pouco são as pernas que não funcionam pra dançar. E logo você começa a perceber que não está fazendo mais nada além de caminhar e beber.

A alegria de há pouco se foi. Ninguém mais interage com você e você é dominado pela necessidade de se inibir na conversa (coisa de que, paradoxalmente, você quer fugir falando). Sua boca se mexe, em silêncio: abre, encosta na lata, fecha. E depois de fazer isso umas trezentas vezes, fica rançosa, como os braços, dormentes desde o começo.

Chegou agora e já se sentou? Vão reparar. Você levanta, caminha um pouco e, por um momento, podia jurar que tem sete pernas. Está torto, feio. Corre para o banheiro.

"Hum, não sei não". O cabelo não está bom, espevitou. Todo o resto também não ajuda, afinal você deu pra escolher a pior roupa. Além disso, quem mandou jurar regime e, logo depois, refogar o arroz com bacon? Agora está aí o resultado, o espelho não mente. Ar. Qualquer coisa é melhor do que isso...

Você corre para fora. É bonito o quintal decorado, com a grama meio crescidinha, as coisas fora do lugar para as pessoas se sentirem em casa.

Sim, ali se conversa bem. E se você reparar com atenção, até encontrará, em meio à fauna, outros marcianos como você, misturados aos maconheiros (muito embora não fumem). Eles puxam conversa, te deixam à vontade; mas só até você se interessar um pouquinho. E, finalmente, quando chega a hora mais esperada por eles, ou seja, a de você sustentar o papo... nada... sua boca é uma tumba, de novo.

Também, pudera: está bem mais legal só ver ela dançando ali no fundo da sala, no escuro. Prendeu o cabelo encaracolado com um coque e deve ser a única pessoa no recinto que consegue dançar com os braços ligeiramente levantados e ainda parecer elegante, o corpo leve balançando pra lá e pra cá, prá lá e pra cá, pra lá...

Alguém passa avisando que tem uma mancha na sua calça; ou melhor, gritando a plenos pulmões "Nossa! O que é isso aqui?". Piadinha de cinco minutos, nada de mais. Pelo menos cortou o silêncio embaraçoso. Você dá uma tiradinha sem graça e sai. Encaminha-se, casualmente, à sala de estar. Ela já não está mais lá ( talvez por isso, desacorçoado, você olhará mais catorze vezes para a mancha, impedido que está de chacoalhar o esqueleto ao som de Lulu Santos)

Pior é quando as pessoas são interessantes. As opiniões mais ousadas parecem irremediavelmente superficiais; as conversas mais espontâneas, marcadas; os gestos, ensaiados; os sorrisos, falsos. Tudo te cansa....

Logo em seguida, lá está você, no canto, fazendo esforço para parecer à vontade, mesmo sentindo que está sentado em um formigueiro. Alguns passam, admiram a decoração nacional-popular; capaz que sintam a sua presença, perfilada entre os cangaceiros e o boi-bumbá.

Uma moça atraente (não exatamente a que você queria) chega na roda, para e fica conversando ali de frente. Vira e mexe te joga um olharzinho. Pode estar pressionando o malucão que obviamente está investindo. Pode ser que não, olhou muitas vezes, esperou resposta. "Que legal!"

Legal? Frio, pânico, nada pra dizer....

Também, não poderia ser diferente. Principalmente desde que você decidiu que a melhor maneira de se mostrar disponível é se disfarçando de samambaia. Você desvia o olhar; ela se cansa do seu ridículo joguinho de esconder. Melhor assim...

Algum amigo passa e te cutuca. "E aí, meu? De boas? Tá meio caidão...". "É... semana difícil, muito trampo...". "Pode crer". Dá um gole na cerveja. Clac, tira o anelzinho da tampa. Tosse. Faz pose com a mão na cintura. Por fim, avista alguém de longe. "Vou lá, falar com...". "Sussa, tranquilo, beleza...".

Nesse tempo todo, é claro, você acendeu um cigarro, dois, três. A esta altura, seu maço já era. E aí, pela primeira vez, surge a ideia na sua cabeça: sair pra comprar outro maço e, quem sabe, se mandar dali. Você para e pensa direito. Está sem sono. Não acha bom ir pra casa, assim, ouriçado, com a cabeça em tumulto. Pra completar, adivinha quem está ali naquela outra roda? Custou tanto pra não pensar mais nela... e ela nem te conhecia... imagina agora que conhece...

E você se vê novamente na situação de um adolecente bobo, trombando em tudo, se esforçando para ser o homem que você ainda não é (será um dia?), tudo para se fazer perceber por uma moça que nem te conhece. Fica sonhando, querendo se dissolver naquela cabeleira vermelha, apertar aquela cintura delicada, sentir aquela pele macia no peito, ali, tão perto, tão.perto, tão...

Onde? Sumiu...

"Merda! Melhor ir embora mesmo...". Mas você não veio sozinho. Muito pelo contrário, aliás. Tem umas duas pessoas que dependem da sua carona.

Você checa com os amigos em comum. Estão todos acompanhados, ou de carro cheio. Certo, chamar a rapaziada, então. Você vai e atrapalha a alegria das pessoas, dizendo "Pô, acho que já vou nessa". Daí, de duas uma: se querem ir embora, aceitam de bom grado (mesmo que, para os outros, não deixem de pôr a culpa em você, que já estava mortão a olhos vistos); se não querem ir, enrolam mais meia hora no mínimo.

Resultado: de qualquer maneira você continua irritado e empestando o ar com sua má vontade...

Finalmente chega a hora. Os companheiros estão de posse de seus pertences e acenam, mostrando-se dispostos a partir. Você pula os conhecidos, cumprimentando só os amigos. "Desculpa, gente, tô cansadão... acho que vou pra casa.". " Ah, mas já? E o pior é que você vai levar fulano e fulano com você". Você pensa: "obrigado, agora durmo mais feliz sabendo que vou fazer falta" e mal consegue suportar tanta autopiedade, pois, no fundo, fosse outro o seu humor, você diria a mesma coisa, espantando urubus.

Ligeiramente aliviado de sair dali, você dirige, mecânico. As mãos se esparramam no volante. Em cada músculo tenso de seu corpo, você se sente como se tivesse sido atropelado por uma manada de elefantes, muito embora não tenha movido uma palha na festa.

Seus caronas estão cansados, não conversam. Ainda bem. Você os deixa em casa com um muxoxo amistoso e segue para a sua. Não interessa se o caminho será curto ou longo, pouco antes de você chegar no seu quarteirão, você será atravessado por imagens dos poucos bons momentos da festa. (A que mais vai doer: o close daquele primeiro olhar da ruiva, agora fundido à provavel cena dela partindo com o cara cujo nome ela já trazia tatuado na nuca).

Você vê os postes passando de revés e, por um minuto, pensa que talvez fosse melhor acabar com tanto desassossego. Logo espanta essa ideia, ponderando que abandonar a festa já foi covardia suficiente.

Vai pra casa, dorme e acorda pior do que já estava.

O que fazer?

Bem, tenho até um pouco de vergonha de dizer isso, mas, vá lá, não é nada muito indecente...

Às vezes, se eu fecho os olhos - bem apertados mesmo - e me encolho no sofá no meio das almofadas, minha cabeça faz giros sozinha e eu começo a sentir "coisas". Não dá pra dizer que a gente está sonhando, porque assim não se chega a dormir (talvez, por isso, é quase como se fosse real). Hoje, fiz isso.

E senti aqueles cabelos vermelhos, enormes, maiores do que eu, maiores do que ela, maiores do que a festa; um milhão de cabelos vermelhos e aqueles olhos de mil cores fazendo festa em mim...

domingo, 2 de agosto de 2009

Vermelho, branco e cinza dá azulão


Qual a impressão preponderante que um adulto leva consigo a respeito de seus anos de escola?

O "Ateneu" responde bem a essa questão, se a pergunta vier de alguém interessado na educação dos jovens brasileiros do século XIX oriundos das camadas médias urbanas .

É provável, também, que o livro ainda diga muita coisa sobre os alunos que moram nos idosos de hoje em dia, nascidos nas décadas de 30, 40. O sistema de ensino era semelhante e o país também não mudara muito.

E quanto a nós, jovens adultos, na casa dos vinte? Quem poderia nos ajudar?

Raul Pompeia, certamente não. Além de estar fora de moda, faz parte de um Brasil arcaico, encalacrado entre a França e Portugal, agrícola e dependente, ignorante quanto à alta do dolar, o preço da passagem para Amsterdam e a educação à distância. Sem contar que se matou muito jovem, viveu ressentido e, por isso, não chegou a deixar da vida uma impressão muito madura ou consequente.

Talvez consultar a geração atual de ex-alunos seja mais proveitoso.

Enfim, o leitor converse com qualquer ex-aluno ou profissional da área do ensino privado. Creio que, se o fizer, verá emaranhar-se diante de si um confuso novelo feito de "descompromisso generalizado", "indisciplina", "automatismo" e "violência".

São palavras conhecidas. Imponentes, de certa forma. Marcam, via contundência e ar especializado, ao mesmo tempo, a distância e o vínculo com o ensino em vigor. Ouvimos falar nelas, com impaciência, todas as vezes que ligamos o rádio ou lemos revistas peritas. Às vezes saem da boca dos próprios pais dos alunos em curso.

Bastam para dar conta do que vivemos na juventude?

Seria bom se pudéssemos acreditar que sim. O que seria o caso se não houvesse sempre, com a universalização do acesso ao ensino, motivos privatistas para se desqualificar esse ou aquele método, essa ou aquela escola.

Com isso, se você, como eu, caro leitor, tem interesse em saber o quanto sobrevive de sua vida escolar em si, creio que poderá contar apenas com a própria memória e os conhecimentos acumulados na maturidade.

Nao é tarefa muito fácil. Mas vamos a ela.

No meu caso, concluí os estudos básicos num pequeno colégio de São Caetano do Sul, hoje extinto, chamado Quarup. Trata-se (travatava-se) de um colégio pequeno numa cidade pequena e que, desde o final da década de 70, quando foi fundado, acenou - pelo menos no folheto de adesão -, com uma ideia de ensino baseada na pessoa, em seu modo de vida, suas crenças, inclinações e histórias. Propunha-se a libertar-nos da estreiteza, da mentalidade tacanha do interior, e nos preparar para a "vida nova" (o leitor logo saberá a que me refiro) exercitando a reflexão e a autonomia.

No entanto, pensar e dizer o que se queria, ali, era o que menos se fazia. Não por censura, não por coação, é claro. Por abandono carinhoso, por descaso educacional circundado de zelos e ternuras.

Noutras palavras: o que muito se fazia ali, era, na verdade, justamente o contrário de educar; era envolver alunos, professores e funcionários na imagem do que seria uma grande família. Mas não uma família qualquer, e sim, uma família afinada com a vida nova surgindo para além da Avenida dos Estados, preparada em vista do mercado de trabalho e sedenta pelas novidades tecnológicas que chegavam a galope.

Com o que, aliás, desde o começo, se angariava as graças das verdadeiras famílias - provincianas e arrivistas - do ABC.

Daí porque ninguém saía de lá mais sábio, temperado, crítico ou informado. Saía bacana entre os pares, com traquejo social frente a estranhos. Cheio de ilusões, principalmente, e com automática prontidão para seguir a vida e ganhar o seu. Nenhum incômodo salvo os que tocavam à ponta do próprio nariz...

Parece exagero, o leitor dirá. Não é. Mesmo que, lamentavelmente (e por razões que já expliquei acima), conte apenas com a memória e algum conhecimento para afiançar o que estou falando.

Conhecimento, nem tanto. Meia duzia de coisas que sei sobre o que aconteceu com o país e minha pequenina cidade nesse meio tempo.

Pois bem... vamos lá...

Nada... embatuquei...

Fico tentado a falar da ditadura aqui. Talvez porque ouvisse meus professores falarem nela, a origem de todo o mal a ser exorcisado por nós, gente não-conspurcada....

Ouço ecos longíquos de palavras como "liberdade", "possibilidade de expressão", "criatividade", "invenção de si mesmo", "atitude política", mas tudo isso ligado a quê? Dar coices nos outros e garantir o de-comer...

Que mixórdia fabulosa! Que riqueza de contradições! Por onde se desfiar tudo isso? Até mesmo as palavras-diagnóstico da educação-hoje-em-dia (aquelas com que começamos o texto) me parecem menos enoveladas.

Enfim, leitor... o conhecimento parece ainda ser de menos para dar conta dessa confusão. Fica o sentimento de logro, de deformação, o vazio mental, os roxos na pele, o tédio e, frustrada, a vontade de encontrar na memória os meninos que fomos um dia...

Ou quase...

Tudo o que sei é que nesse ambiente em que se preparavam os novos alunos para o recém-saturado mercado de trabalho brasileiro, paradoxalmente, se respirava a tal fraseologia da liberdade.

Que gozado! No fundo é como se toda a legitimidade moral dos meus professores viesse de terem vivido os ares emancipatórios dos 50, o golpe de 60, a marmorra dos 70, as promessas dos 80 e a ressaca dos 90. Parecíamos, diante deles, pequenos bárbaros, entretidos com videogames, pornô e metal. E eles, muito pelo contrário, tinham lutado contra o dragão. Tinham cruzado a Maria Antônia sob uma chuva de pedras, participado de passeatas, vivido agruras impensáveis. Eram produto de uma riqueza inestimável de experiências...

...que fazia, no entanto, com que não tivessem a mínima ideia do que medrava em nossos espíritos movidos a megabytes.

Imagino que nos grandes centros urbanos, descontada a ignorância da província, tenha-se vivido coisa parecida. Será que o pessoal de polainas, vidrado em Topo Giggio*, não terá alguma coisa a me dizer aqui? Não ouviram a mesma coisa de seus professores? Não acham estranho, hoje em dia, que a aura combativa que eles contruiram para servir-nos casasse tão bem com as lições de cinismo que eles nos deram? Conheceram hippies publicitários, também? Gente da revolta armada que votou no Collor? Foram também erigidos a pioneiros de um Brasil helicoidal, onde se viveria como em perpétuo estado de modernidade, o que estranhamente era proposto como ideal por gente cujo "senso crítico" nascera na "contestação ao sistema"?

Vou assumir que sim e fazer força pra voltar ao assunto (afinal nas minhas aulas de dissertação, só aprendi que ela tinha começo, meio e fim, não a refletir em linha reta...)

Por incrível que pareça foi só nessa época, o começo dos 90, que aquilo que há muito já acontecia nos centros urbanos chegou à província mais próxima de São Paulo: São Caetano completava sua intérfase. Surgiam as primeiras lojas de conveniência, que hoje pululam; os bancos, os clubes, as roupas de grife, as casas noturnas. Isto é, a cerejinha do ABC finalmente deixava de ser uma cidade industrial para se transformar em pólo de serviços (mal começada a "dinastia Tortorello"*, o horizonte já brilhava, azulão*). Por outro lado, sumiam as indústrias e montadoras. A Brasinca já era o grande murão azul que pulávamos para jogar bola. A ZF* desmontava-se, uma das últimas (e o seu Mário, meu ex-sogro, perdia o emprego). A Voucs* também e, com ela, os sindicatos, as carteiras de trabalho, a aura combativa. Resumindo: sumira a cidade que colhera os frutos do "milagre econômico", implantado nas décadas de 60/70; sumira uma pequena "ilha de riqueza", como se dizia na época.

Onde fora parar?

Ora, em lugar nenhum. Ficara bem ali, dormindo dentro da italianada antes proletários da Matarazzo, agora médios comerciantes; antes explorados pela colônia, agora exploradores impessoais.

Como aprenderam bem com o silêncio de trinta anos! Enquanto ouviam-se gritos e tiros em São Bernardo, trabalharam calados como formigas, juntaram dinheiro, recauchutaram tudo... em silêncio, sempre em silêncio... Sanaram as contas públicas, investiram pesado em saúde e urbanismo, quietinhos, na moita... enfim... travaram o combate dos "sábios"....

Uma década depois, combativos eramos nós, também... só que à nova moda.

Não bastava o mingau de resignação oportunista que os professores nos serviam todos os dias (às vezes só por ater-se ao programa e calar sobre a vida) para nutrir campeões. Claro que não. Além dele foi necessária também a sociabilidade espontânea no colégio, que se encarregava do mais fundamental da formação. Essa mistura é que era a nossa "lição de casa".

Os folhetos de adesão que chegavam aos borbotões nas nossas casas diziam "emancipe-se" e isso funcionava, lá dentro, entre os quatro muros da escola, como "prove-se o melhor, o mais forte, o mais esperto, o mais rico, encontre seus pares e achicalhe os demais". Dura lição, aprendida como que por instinto no cotidiano "um come o outro", na convivência interpessoal movida a rusgas, hostilidade, panelinhas e socos.

Às vezes eu me pergunto se tamanha violência já não era uma forma de nos preparar para essa vida cachorro-solto que a gente leva hoje em dia com emprego incerto e sob a necessidade de ser "descolado", conseguir as coisas na base das filiações pessoais, com conversas, pancadas certeiras e silenciosas, extorções simpáticas.

Que diabo de vida besta! Quantas palavras! Quantas coisas passando ao alcance das mãos... que hoje como há pouco se esbofeteiam para pegá-las.

E a professora nos lia Drummond, recebido com amor e basbaque por nós, gente da cidadezinha qualquer (ou quase), bichos em devir (sem a dignidade silenciosa dos bois).

Bom, deixa eu parar por aqui. A essa altura o leitor já deve ter percebido que demos com os burros n'água tentando descobrir de onde vem o quadro desolador da nossa educação. Paciência. Às vezes um desabafozinho não faz mal a ninguém. E, em todo caso, é melhor fazer isso acompanhado do que sozinho. E melhor ainda daqui, de longe, de onde não se apanha por não se reagir com desenvoltura.

Para falar no jargão da vez, fica aqui, então, "um salve"* à juventude formada em escolas como o Quarup! Viva a pura agressão, a falta de perspectiva, o tesão ao segundo, a vontade de se largar nas coisas e virar manequim! Viva a gente de plástico... perfumada, coradinha, bem nutrida, é claro...viva a gente do extinto e nem sempre lembrado Colégio Drummond Quarup...

... que, afinal de contas, não era assim tão diferente do Ateneu*.

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Glossário

* Ateneu - livro de Raul Pompéia. Também o nome de um colégio menos famoso que o do livro, situado em São Caetano do Sul, de ensino reconhecidamente fraco, hoje apostilado pelo sistema Anglo, mas antes sem fumaças de modernidade.

* Azulão - time de futebol ativamente promovido pela municipalidade e vendido como cartão de visitas da cidade desde o final da década de 90 até hoje.

* Dinastia Tortorello - refere-se a Marquinho Tortorello, Auricchio e, ao patriarca, Luis Olinto Tortorello, prefeito da cidade por tantos anos que não me lembro mais quantos, e homem cuja gestão é responsável pelo processo de transformação referido no texto.

Também a ele se pode atribuir a construção de zilhões de praças, numerosos recapeamentos da Av. Goiás, trocas constantes do quadro de professores no colégio Alcina Dantas Feijão e o estouro do AD São Caetano. É juiz e, além disso - dizem -, dono de Matão, cidade do interior de São Paulo.

Já a Auricchio pode-se atribuir o piscinão da Dellamare, os faróis com contagem regressiva da Av. Goiás, as palmeiras da Av. Kennedy (sobre cujo faturamento há controvérsias) e a perpetuação dos genes políticos de Tortorello.

Marquinho, eterno candidato a prefeito, nunca eleito, filho pródigo de Luis Olinto, foi vereador em São Paulo, será sempre protagonista de histórias maldosas que todos contam e estrelou a verdadeira traíção shakespeareana que foi seu pai preteri-lo em favor de Auricchio na preleção para o pleito em que este se elegeu.

* 'Rei' - Roberto Carlos. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, ES, foi o grande cantor popular da década de 60 e em diante. Encarnou, quando surgiu, o que havia de mais superficial no espírito do tempo: a rebeldia, as calças jeans, as gírias, o carro esporte, o rock n' roll, a tola canção de amor juvenil metida a descolada. Encarna hoje em dia o que há de mais superficial no espírito do tempo: é evangélico, só anda de branco ou azul para fazer da crendice modelo de integridade pessoal, preside os especiais de ano novo na Globo e vive do estrondoso e duradouro sucesso das canções de amor aguado e de-meia-idade que compôs de 70 pra cá (quando, é claro, envelheceu e parou de compor canções de amor desabusadas e tolas ainda que jovens).

* São Caetano do Sul -o C da sigla ABC paulista. Cidade de imigrantes italianos fundada no começo do século XX, que só conservou de italiano o sotaque e a festa em que se vende fogazza e se ouve tarantela (com um ou dos éles?). Espécie de dormitório para parte dos trabalhores paulistas. Diz que não tem favelas e risca seus limites bem rente à maior da América Latina, além de empurrar para Sto André a Palmares, uma menor. Noticiada, consequentemente, como irmã gêmea e mais quente de Oslo segundo o IDH, poderia ser caracterizada como uma espécie de Moema fora de SP, não fosse um pouco mais vulgar, pobre e ignorante. Sua maior rua é, e continua sendo, a Av. Goiás, margeada pela General Motors, como o Guarujá é pelo mar. O centro localiza-se logo ao sul, depois do qual encontra-se a Fundação e a Vila Prosperidade, bairros operários, não por acaso os mais vitimados pelas enchentes do Tamanduateí. Abriga uma cena de rock considerável, apesar de ser sede - dependendo da gestão, com má-vontade - de uma boa e até onde sei acessível escola técnica de música e teatro, a Fundação das Artes. Não tem boas escolas de ensino formal, bibliotecas ou cinemas decentes, corre atrás de Sto André no empolgante circuito de cultura atual, mas é prolífica em luminosos e programas públicos de saúde e esportes.

* Toppo Giggio - boneco sinistro, em tamanho real, apresentor de um programa infantil bem-humorado na década de 80 veiculado pela hoje extinta (amem) Rede Record. Também andava de skate e brincava de pogoball no ar.

* 'um salve' - expressão com que rappers e jovens de periferia saúdam - e assim legitimam-se junto - à comunidade em que vivem, viveram ou que frequentam.

* Voucs - tratamento familar, corruptela praticada pelos habitantes do ABC para designar a Volkswagen

* ZF - montadora de caminhões. A última indústria automobilística a se retirar da cidade, em meados dos anos 90.